O jurídico que antecipa riscos, não apenas os resolve
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DIREITO EMPRESARIAL

As empresas passaram a precisar antecipar riscos e não apenas resolvê-los

Em entrevista exclusiva à Lawletter, a advogada Natalia Dias analisa como as transformações regulatórias, a evolução da governança corporativa e o avanço da tecnologia estão redefinindo o papel estratégico do jurídico nas empresas.

Imagem da entrevistada
Créditos da imagem: Acervo pessoal

Durante muito tempo, a advocacia empresarial foi acionada quando um problema já havia se concretizado. Litígios, autuações fiscais, disputas societárias e passivos trabalhistas eram tratados como eventos isolados, solucionados à medida que surgiam. Esse modelo, entretanto, já não responde à realidade das empresas brasileiras.

Em um cenário marcado por profundas mudanças legislativas, novas exigências regulatórias e crescente complexidade dos negócios, o papel do jurídico deixou de ser essencialmente reativo para assumir uma função estratégica dentro das organizações.

Para a advogada Natalia Dias, sócia do escritório André Menescal e especialista em Direito Empresarial e M&A, essa transformação não decorre apenas da evolução do mercado jurídico, mas principalmente da velocidade com que o ambiente regulatório brasileiro vem sendo remodelado.

"Estamos vivendo alterações legislativas muito substanciais. Reforma tributária, mudanças na tributação da renda, novos setores altamente regulados... Tudo isso faz com que planejamento e organização deixem de ser diferenciais e passem a ser elementos essenciais para a solidez das empresas", afirma.

Segundo a advogada, muitas estruturas empresariais foram construídas sob premissas legais que já começaram a mudar e continuarão sendo alteradas nos próximos anos, exigindo revisões constantes da forma como os negócios são organizados.

O jurídico deixa de apagar incêndios para participar da estratégia

Na avaliação de Natalia, um dos maiores equívocos ainda presentes nas empresas é enxergar o departamento jurídico como um setor responsável apenas por impedir decisões ou solucionar conflitos.

Hoje, explica a especialista, essa atuação precisa ser integrada ao planejamento empresarial desde a origem das decisões.

"O risco jurídico não respeita fronteiras entre especialidades. Os problemas não existem em silos. Uma empresa precisa ser analisada como um organismo vivo, onde todas as áreas se relacionam."

Essa mudança exige uma postura diferente dos próprios profissionais do Direito.

Mais do que dominar sua especialidade técnica, torna-se indispensável compreender o mercado em que a empresa atua, acompanhar indicadores econômicos, entender movimentos regulatórios e identificar oportunidades capazes de fortalecer o negócio.

Nesse contexto, o jurídico deixa de atuar exclusivamente na mitigação de contingências para assumir uma posição propositiva.

"A lógica não é apenas lidar com problemas ou apagar incêndios. É identificar oportunidades para gerar eficiência fiscal, estruturar melhor a sociedade, fortalecer a governança e tornar a empresa mais preparada para captar investimentos ou realizar operações estratégicas."

Governança deixou de ser diferencial e passou a ser proteção

Entre os principais riscos que ainda costumam ser percebidos apenas quando já provocaram prejuízos, Natalia destaca a ausência de estruturas sólidas de governança corporativa.

Segundo ela, é justamente nos momentos de maior exposição que essas fragilidades aparecem.

"Quando a empresa enfrenta riscos reputacionais, fiscais ou tributários, a primeira coisa colocada à prova é a qualidade da sua governança."

Na prática, a governança influencia diretamente a capacidade da organização de responder a crises, preservar sua reputação e transmitir confiança ao mercado.

Outro ponto frequentemente negligenciado está na estrutura societária.

Para a especialista, a forma como uma empresa organiza sua composição societária impacta diretamente questões tributárias, distribuição de resultados, proteção patrimonial dos sócios e até mesmo futuras operações de venda ou captação de investimentos.

"A estrutura societária é a espinha dorsal da empresa."

É nos contratos que o risco jurídico se materializa

Embora muitas organizações concentrem esforços na resolução de disputas, Natalia defende que a prevenção começa muito antes de qualquer conflito judicial.

E um dos principais instrumentos para isso continua sendo o contrato.

Cláusulas mal estruturadas, ausência de critérios objetivos para reajustes, hipóteses insuficientes de rescisão e distribuição inadequada de responsabilidades criam vulnerabilidades que costumam aparecer apenas quando o conflito já está instalado.

"É no contrato que o risco se materializa."

Na visão da advogada, investir em contratos bem estruturados significa reduzir litígios futuros e aumentar a previsibilidade das relações empresariais.

Tecnologia passa a fortalecer a prevenção

A transformação do jurídico também passa, inevitavelmente, pela tecnologia.

Para a advogada, ferramentas tecnológicas, especialmente soluções baseadas em inteligência artificial, já começam a alterar significativamente a forma como departamentos jurídicos trabalham na prevenção de riscos.

Entre as aplicações que ganham espaço estão revisão automatizada de contratos, identificação de cláusulas críticas em grandes volumes documentais, monitoramento de obrigações contratuais, controle de prazos e construção de painéis de contingências capazes de oferecer uma visão estratégica dos riscos da empresa.

Na avaliação da especialista, esse movimento também fortalece uma cultura de decisões orientadas por dados.

O futuro pertence ao jurídico que entende o negócio

Natalia afirma que o conhecimento técnico continuará sendo requisito indispensável, mas deixará de ser o principal diferencial competitivo.

Empresas passam a valorizar profissionais capazes de combinar domínio jurídico, compreensão de mercado, uso inteligente da tecnologia e proximidade com a tomada de decisões estratégicas.

Segundo ela, essa atuação permite entregar muito mais do que respostas jurídicas: possibilita construir diagnósticos, identificar as origens dos riscos e desenvolver estruturas mais eficientes para o crescimento sustentável dos negócios.

Em um ambiente empresarial cada vez mais complexo, a advocacia preventiva deixa de representar apenas uma ferramenta de proteção patrimonial. Ela passa a ocupar um papel central na estratégia das organizações, permitindo que empresas antecipem riscos, fortaleçam sua governança e tomem decisões mais seguras antes que os problemas se transformem em crises.

Redação LawLetter
Redação LawLetter

Equipe editorial responsável pela apuração, produção e publicação de notícias, análises e conteúdos sobre os principais acontecimentos do Direito no Brasil.

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