direito imigratório
Como o advogado pode se beneficiar da fuga de cérebros
Diante de uma possível nova onda de fuga de cérebros, o advogado de imigração Vinicius Bicalho vê no direito imigratório uma das maiores oportunidades de crescimento na advocacia.
Em 2023 o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, estimava que cerca de 6,7 mil cientistas saíram do Brasil para continuar seus estudos no exterior entre 2015 e 2022. E não só pesquisadores se deslocam para fora do país para continuar sua carreira: em 2025, o Relatório de Contratações Internacionais formulado pela empresa Deel, apontou que a demanda internacional por profissionais brasileiros de diferentes áreas aumentou em 53%. Os Estados Unidos lideram o crescimento, com 26% de aumento na demanda.
Esse é o fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”, “evasão de talentos” ou “fuga de capital humano”: quando profissionais que foram qualificados em um país vão atuar profissionalmente em outro, em geral devido a melhores condições para a sua atuação. Vinicius Bicalho, que atua como advogado de imigração nos Estados Unidos, em Portugal e no Brasil, entende que no Brasil a fuga de cérebros se deve “a diversas motivações, [como] questões tributárias, ambiente de negócio, e, principalmente, a violência.”
Ele considera, em seu artigo “Brain drain: o Brasil forma talentos, mas os Estados Unidos podem ficar com eles”, que o Brasil pode estar diante de uma nova onda de fuga de cérebros, devido ao cenário político e econômico que se desenha no país. A percepção de um aumento de violência, diz ele, também é um dos principais fatores que fazem com que aqueles que têm a oportunidade considerem recomeçar a vida em outro país.
Essas conclusões não partem puramente de uma impressão. Em seu artigo “Cresce o número de advogados brasileiros que decidem internacionalizar a carreira”, publicado pela Lawletter, Bicalho conta que entre janeiro e maio de 2026 seu escritório (Bicalho Consultoria Legal) registrou mais de 3 mil brasileiros que buscaram orientação jurídica para sair do país, e que 67% dos atendimentos envolviam famílias inteiras, e não apenas uma pessoa.
Nesse cenário, ele considera que cresce a importância da especialização em direito imigratório (que é, segundo ele, um dos ramos mais importantes do direito estadunidense). O entendimento das regras que uma pessoa que vem de outro país precisa atender para poder morar legalmente no país que ela deseja pode se tornar uma oportunidade única de crescimento profissional na advocacia.

“Então, hoje, mais do que nunca, com esse mundo globalizado, conectado, se tornou importante a especialização em direito migratório. É o advogado que consegue auxiliar a pessoa a sair do país e se regularizar com segurança.”
Vinícius Bicalho, advogado de imigração
Além de brasileiros procurando auxílio para sair do país, existe, é claro, um mercado aberto para atuar junto a imigrantes que estão chegando ao Brasil ou pretendem vir morar aqui. Apesar de considerar que o Brasil “se relaciona muito pouco com o mundo”, Bicalho aponta que também somos um país que recebe imigrantes, em especial de outros países da América Latina e de Angola.
E por onde começar a atuação internacional?
Vinicius Bicalho diz que existem diversos profissionais formados no Brasil que atuam internacionalmente, seja com imigração ou com a internacionalização de empresas e outros setores correlatos.
Para ele, o primeiro passo para se tornar um profissional hábil para fazer isso é a capacitação, “tanto com conhecimento de outras línguas quanto conhecimento de outras legislações”. A capacitação acadêmica, ele lembra, não precisa envolver o advogado imigrando ele mesmo. “Hoje é possível você estudar em qualquer lugar do mundo sem sair da sua casa.” ele afirma.
Bicalho recomenda ainda que quem está começando escolha primeiro um único país, de preferência focando apenas na área em que se pretende atuar:
“Se você optar por estudar uma determinada matéria em um país, você vai poder ter uma profundidade muito maior do que se você estudasse a matéria em diversos países. Por uma questão simples. Você vai ter o mesmo tempo de estudo, e quando você foca em uma temática, certamente você pode ir com uma profundidade maior.”
Vinícius Bicalho, advogado de imigração
Ele destaca também a importância de experiências profissionais que ajudam na transição para uma carreira que se projeta externamente. Isso não necessariamente significa trabalhar em um escritório internacional, ou atuar com o Direito em outros países: Bicalho cita a participação de congressos e eventos como uma boa alternativa para ampliar o networking para conexões internacionais.
“E hoje, com o advento das conexões digitais, isso se torna muito mais fácil. Cabe ao profissional, se for a esse tipo de situação, buscar também aprender com eventos onde ele vai ter absorção de conhecimento. Até que chegue num momento que ele possa ensinar, os profissionais de outros países também têm interesse em conhecer coisas do Brasil.”
Vinícius Bicalho, advogado de imigração
Um último conselho
Quando perguntado se ele tinha algo mais a dizer sobre o assunto, Bicalho não hesitou em lembrar que “na verdade, o advogado pode atuar além das suas fronteiras. Agora, tudo depende da sede de conhecimento desse profissional.” Ele destacou que a articulação de profissionais estrangeiros com os brasileiros e a troca de conhecimento entre operadores do Direito de diferentes legislações é uma oportunidade para o desenvolvimento de todos os envolvidos e afirmou:
“O que eu queria dizer é que o mundo vai muito além das suas fronteiras. E você, como advogado, pode também auxiliar os seus clientes além das suas fronteiras, não dentro só dos seus limites.”
Vinícius Bicalho, advogado de imigração
Jornalista e comunicadora, formada pela Universidade Federal de Viçosa
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