DIREITO À MORADIA
Justiça suspende desocupações de famílias às margens de ferrovia em Arcos
Decisão atende pedido do MPMG para interromper ações individuais de reintegração de posse contra 94 residências situadas próximo aos trilhos.
A Justiça suspendeu, nesta quinta-feira, (24), todos os processos de reintegração de posse e ações possessórias em tramitação na Vara Cível de Arcos que ameaçavam a permanência de famílias residentes às margens da linha férrea. A decisão, proferida em caráter liminar a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), visa impedir o desalojamento de dezenas de pessoas e garantir que o conflito seja tratado de forma coletiva e estruturada.
O Ministério Público sustenta que a Ferrovia Centro-Atlântica, concessionária do trecho, tem movido ações individuais contra moradores sem apresentar planos de reassentamento ou indenizações. De acordo com a Secretaria de Obras de Arcos, 94 residências estão em áreas próximas aos trilhos, sendo que a maioria das ocupações é consolidada há décadas, envolvendo pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Os promotores de Justiça Rafael Benedetti Parisotto e Camila Aparecida Pires ressaltaram que a questão possui dimensão coletiva. Durante a apuração, foi constatado que a concessionária recusou propostas de construção de um plano habitacional conjunto, transferindo a responsabilidade social para o Poder Público. O magistrado responsável pelo caso destacou que a execução de despejos isolados poderia provocar a ruptura de vínculos comunitários e danos de difícil reparação para famílias de baixa renda.
Um relatório técnico do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Apoio Comunitário, Inclusão e Mobilização Sociais (CAO-Cimos) revelou que 82,9% dos moradores habitam o local há mais de 15 anos. O levantamento também indicou que 95,1% das famílias possuem renda de até dois salários-mínimos e 78% recebem cobranças de IPTU sobre os imóveis, o que demonstra uma tolerância histórica do poder público com a ocupação.
Com a decisão, os processos individuais estão suspensos e uma audiência de conciliação foi designada para fevereiro de 2027, visando encontrar uma solução global que contemple o direito à moradia e a segurança das famílias, evitando o tratamento desigual verificado anteriormente.
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