Divórcio: a defesa da mulher vai além da partilha de bens
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DIREITO DAS MULHERES

Proteção patrimonial, acolhimento e estratégia: a nova atuação da advocacia em defesa das mulheres

O divórcio deixou de ser só partilha de bens: envolve violência psicológica, dependência econômica e assimetria de informação. Para Ana Casagrande, a defesa da mulher começa antes da petição inicial.

Proteção patrimonial, acolhimento e estratégia: a nova atuação da advocacia em defesa das mulheres

O Direito de Família vive uma das maiores transformações de sua história recente.

Se antes a atuação do advogado concentrava-se na formalização do divórcio, definição de guarda e divisão patrimonial, hoje os profissionais lidam diariamente com conflitos marcados por relações abusivas, dependência econômica, violência psicológica e vulnerabilidade emocional.

Na avaliação da advogada Ana Casagrande, especializada em Direito de Família voltado à defesa dos direitos das mulheres, essa mudança alterou profundamente o papel da advocacia.

Mais do que conduzir processos judiciais, o advogado passou a exercer uma função estratégica na reconstrução da autonomia de pessoas que, muitas vezes, chegam ao escritório após anos vivendo relações de controle.

"O principal desafio deixou de ser apenas jurídico. Hoje precisamos estar preparados para acolher mulheres em situação de vulnerabilidade e compreender que o processo começa muito antes da petição inicial."

A vulnerabilidade não termina quando o divórcio começa

Segundo a especialista, é comum que mulheres iniciem o processo de separação sem acesso às informações financeiras da família e completamente dependentes do companheiro.

Essa dependência, explica, não é apenas econômica.

Em muitos casos, existe um histórico de manipulação emocional que continua durante o processo judicial, por meio de ameaças, intimidações e outras formas de violência psicológica.

Por isso, a atuação jurídica precisa ultrapassar a elaboração das peças processuais.

Dependendo da situação, medidas protetivas, orientação sobre segurança e encaminhamento para atendimento psicológico tornam-se parte da estratégia de proteção da cliente.

"A advocacia precisa olhar para tudo o que acontece em torno do divórcio, não apenas para aquilo que está dentro do processo."

Informação patrimonial tornou-se um ativo estratégico

Entre os principais problemas enfrentados nos divórcios litigiosos está o desconhecimento sobre o patrimônio familiar.

Na prática, muitas mulheres desconhecem a renda efetiva do companheiro, investimentos realizados ao longo do casamento ou até mesmo a existência de imóveis registrados apenas em nome do marido.

Segundo a advogada, essa assimetria de informações compromete diretamente a capacidade de negociação e o exercício dos direitos patrimoniais.

Por isso, ela defende que a preparação para um eventual divórcio deve começar antes mesmo do ajuizamento da ação.

"O primeiro passo não é entrar com o processo. O primeiro passo é procurar orientação jurídica para entender quais provas precisam ser preservadas e quais direitos estão envolvidos."

Essa preparação inclui levantamento documental, análise financeira da família e identificação de ativos que possam ter sido omitidos durante o relacionamento.

O Método MAPA transforma investigação patrimonial em estratégia jurídica

A experiência prática levou Ana a estruturar um modelo próprio de atendimento, denominado Método MAPA.

A metodologia reúne quatro etapas complementares: Mapeamento completo da história do casal, Análise patrimonial e documental, Pesquisa de bens ocultos e provas e Ação estratégica para proteção dos direitos da cliente.

Segundo a advogada, o objetivo não é incentivar litígios, mas oferecer à mulher informações suficientes para que possa tomar decisões conscientes sobre seu futuro.

Em muitos casos, explica, a cliente sequer sabe a dimensão do patrimônio construído durante o casamento.

Há situações em que acredita estar recebendo uma divisão justa dos bens, mas posteriormente descobre a existência de imóveis, investimentos ou outros ativos que desconhecia completamente.

Além de servir como ferramenta para processos de divórcio, o método também pode ser utilizado por mulheres que desejam compreender sua realidade patrimonial antes mesmo de decidir pela separação.

A perspectiva de gênero muda a forma como o Judiciário analisa os conflitos

Outro avanço destacado pela especialista é a crescente aplicação do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, instituído pelo Conselho Nacional de Justiça por meio da Resolução nº 492/2023.

Na avaliação da advogada, o documento representa uma mudança importante na forma como magistrados analisam processos envolvendo mulheres em situação de vulnerabilidade.

Entre os impactos observados está uma análise mais contextualizada da divisão das responsabilidades parentais.

Dessa forma, decisões que anteriormente dividiam automaticamente as despesas dos filhos em partes iguais começam a considerar também a distribuição efetiva dos cuidados exercidos por cada genitor.

O protocolo também fortaleceu o combate à chamada violência processual, estratégia frequentemente utilizada para descredibilizar mulheres durante o curso da ação, por meio de acusações pessoais que pouco contribuem para a solução do conflito.

Independência financeira também é proteção jurídica

Embora o Direito de Família tenha evoluído significativamente, Ana Casagrande acredita que a principal mudança ainda precisa ocorrer fora dos tribunais.

Na sua visão, a construção de autonomia financeira continua sendo um dos instrumentos mais importantes de proteção das mulheres.

Mesmo nos casos em que o casal decide, de forma consensual, que a mulher se dedicará integralmente ao lar, ela defende que exista planejamento financeiro e participação ativa na organização patrimonial da família.

"Não há problema em optar por cuidar da casa e dos filhos. O problema é depender completamente do outro sem conhecer a realidade financeira da própria família."

Segundo a advogada, conhecer o patrimônio, acompanhar a situação econômica do casal e buscar orientação jurídica antes de tomar decisões importantes reduz riscos e amplia significativamente a capacidade de proteger direitos em eventual processo de separação.

Uma advocacia que acompanha as transformações da sociedade

A evolução do Direito de Família reflete mudanças mais amplas nas relações sociais e na própria compreensão do papel da advocacia.

Questões patrimoniais continuam relevantes, mas já não são suficientes para responder aos desafios enfrentados por famílias em contextos de violência, vulnerabilidade e desigualdade.

Nesse cenário, o advogado deixa de atuar apenas como representante processual e assume uma função estratégica na construção de soluções que conciliam técnica jurídica, proteção patrimonial e respeito à dignidade das pessoas envolvidas.

Redação LawLetter
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Equipe editorial responsável pela apuração, produção e publicação de notícias, análises e conteúdos sobre os principais acontecimentos do Direito no Brasil.

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