Além do direito
Uso de IA no Judiciário precisa sair das sombras, diz Bruno Zampier
Professor de Direito alertou para o uso de ferramentas pessoais e sem controle institucional claro por magistrados e servidores e afirmou que transparência sobre sistemas e prompts integra o debate sobre devido processo.
O uso de inteligência artificial pelo Poder Judiciário já é uma realidade, mas precisa ocorrer de forma transparente e sob maior controle institucional. A avaliação foi apresentada por Bruno Zampier durante o Além do Direito, evento de dois anos da Lawletter.
Ao abordar o que chamou de Shadow AI, ou “IA nas sombras”, o autor e professor de Direito questionou quais ferramentas estão sendo utilizadas por magistrados e servidores, se pertencem aos próprios tribunais ou a contas pessoais e que tipo de informação processual é inserida nesses sistemas.
“Nós temos que sair das sombras. A IA tem que ganhar cada vez mais luz.”
Bruno Zampier, autor, palestrante e professor de Direito
Metade dos magistrados já utiliza IA, segundo dados apresentados
Durante a palestra, Zampier citou pesquisa do Conselho Nacional de Justiça segundo a qual 49,4% dos magistrados e 49,5% dos servidores consultados afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa para auxiliar no trabalho.
Ele também mencionou que 64% dos dois grupos teriam declarado utilizar IA para geração de textos.
A partir desses números, lançou uma provocação sobre um cenário em que uma peça produzida com inteligência artificial pode ser analisada por um profissional do Judiciário que também utiliza a tecnologia.
“Será que nós temos uma IA conversando com outra IA? Onde antes havia um humano conversando com outro humano?”
Bruno Zampier, autor, palestrante e professor de Direito
Contas pessoais e processos sigilosos
O ponto mais sensível levantado por Zampier foi a forma como essas ferramentas são acessadas.
Ele questionou se magistrados e servidores utilizam sistemas contratados oficialmente pelos tribunais ou contas próprias, gratuitas ou pagas.
Também levantou a hipótese de informações relacionadas a processos sob segredo de justiça serem inseridas nessas ferramentas.
Entre os exemplos, mencionou investigações criminais, processos envolvendo menores e questões sensíveis de Direito de Família.
Para Zampier, esse fenômeno configura uma forma de Shadow AI: a tecnologia está presente, mas sua utilização não é necessariamente visível para as partes.
“Quem é que está sentenciando?”
Ao tratar do problema, o professor lançou uma sequência de perguntas.
“Quem é que está sentenciando? É o juiz ou é o ChatGPT? É o ChatGPT na versão gratuita ou na versão paga?”, questionou.
Zampier também perguntou se advogados sabem quais prompts são utilizados pelos tribunais e se têm acesso às chamadas “promptecas”, bibliotecas de comandos que, segundo ele, vêm sendo desenvolvidas por algumas cortes.
A mesma preocupação foi estendida à polícia, ao Ministério Público, à Defensoria Pública e aos órgãos de controle.
Transparência como elemento do devido processo
Na avaliação apresentada, não é suficiente saber que a inteligência artificial está sendo utilizada.
Também seria necessário compreender qual ferramenta está envolvida, como funciona e quais comandos orientam seus resultados.
“O devido processo legal no âmbito da inteligência artificial ainda precisa caminhar e caminhar muito”
Bruno Zampier, autor, palestrante e professor de Direito
Para conferir a fala completa de Bruno no Evento Além do Direito, adquira a gravação completa do evento
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