ALÉM DO DIREITO 2026
Advogado que só resolve problemas simples não vai prosperar nos próximos anos, diz Ronan Santos
Advogado afirmou que avanço da inteligência artificial tende a reduzir o espaço de atividades jurídicas mais básicas e apontou a capacidade de solucionar problemas complexos como diferencial para os próximos anos.
A inteligência artificial deve aumentar a pressão sobre advogados cuja atuação esteja concentrada em serviços jurídicos simples e padronizados. Para Ronan Santos, a capacidade de lidar com problemas complexos, combinando diferentes áreas do Direito e conhecimentos externos à profissão, tende a se tornar um dos principais diferenciais no mercado jurídico.
A avaliação foi apresentada durante o Além do Direito, evento de dois anos da Lawletter. Ao discutir os efeitos da tecnologia sobre a advocacia, Ronan partiu de situações que já identifica na atividade empresarial, como contratos básicos e peticionamentos que começam a ser submetidos diretamente a ferramentas de inteligência artificial, sem a mesma participação humana que existia anteriormente.
Complexidade como diferencial
Para Ronan, a automação não significa necessariamente o desaparecimento dos serviços jurídicos simples. Escritórios capazes de executar essas demandas em escala, com processos automatizados, domínio de prospecção e estrutura de gestão, ainda poderão encontrar espaço.
A mudança está no modelo. Quanto mais padronizável for o trabalho, maior tende a ser a possibilidade de utilização da tecnologia. Por isso, profissionais que não atuam em escala precisariam ampliar repertório para resolver questões em que uma resposta automática ou isolada não seja suficiente.
“É na complexidade que mora o principal diferencial do advogado. Advogado que só resolve problemas simples não vai conseguir prosperar nos próximos anos. A não ser que seja um advogado especialista em resolver problemas simples e que consiga montar uma estrutura de escritório que consiga fazer isso de forma automatizada e que tenha pleno domínio da prospecção.”
Ronan Santos
A própria soma de inúmeras demandas simples pode se transformar em um problema complexo de gestão, segundo a análise apresentada. Nesse cenário, tecnologia, organização do escritório e aquisição de clientes passam a fazer parte da equação profissional.
Especialização não deve significar isolamento
A defesa da complexidade está diretamente relacionada à principal tese apresentada por Ronan: o futuro da advocacia seria do profissional multidisciplinar.
Isso não significa abandonar a especialização. A proposta é manter uma área predominante, na qual o advogado concentre maior nível de estudo, ao mesmo tempo em que desenvolve conhecimento suficiente sobre matérias próximas às necessidades de seus clientes.
No caso da advocacia empresarial, por exemplo, uma demanda societária pode possuir consequências tributárias, sucessórias, trabalhistas ou processuais. Um profissional que conheça apenas uma dessas dimensões pode identificar uma solução juridicamente possível sem perceber impactos relevantes produzidos em outras áreas.
Ronan também afastou a ideia de uma advocacia generalista baseada na aceitação indiscriminada de qualquer tipo de processo. O modelo defendido por ele parte de um perfil de cliente e de uma área principal, complementados por conhecimentos capazes de ampliar a compreensão das demandas daquele público.
O problema do cliente pode não ser jurídico
A multidisciplinaridade, na visão apresentada, também ultrapassa as próprias divisões internas do Direito.
Na advocacia empresarial, compreender gestão, finanças e funcionamento do negócio pode permitir ao profissional identificar soluções jurídicas para problemas que o próprio cliente não apresenta inicialmente como questões legais.
Ronan usou essa lógica para diferenciar uma postura mais ativa daquela em que o advogado permanece no escritório esperando que o cliente identifique sozinho o problema jurídico, procure o profissional e peça uma solução específica.
Esse repertório também permite que um mesmo problema seja observado por diferentes perspectivas. Uma operação societária, por exemplo, pode precisar ser estruturada levando em consideração efeitos tributários e sucessórios, e não apenas a solução formalmente mais adequada dentro do Direito Societário.
IA aumenta a exigência sobre o profissional
A transformação tecnológica aparece, assim, como elemento que acelera uma mudança que já estava em curso.
Se ferramentas automatizadas conseguem assumir parte crescente das atividades padronizadas, o valor do advogado tende a se deslocar para aquilo que exige interpretação, estratégia, capacidade de relacionar conhecimentos e compreensão mais ampla do problema apresentado.
Para Ronan, aumentar o repertório profissional não significa saber profundamente todas as áreas, mas adquirir condições de reconhecer questões que ultrapassam a própria especialidade, dialogar sobre elas e, quando necessário, integrar outros profissionais à solução.
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