Proteção de Dados
Golpes contra advogados: como proteger clientes, documentos e a reputação do escritório
Golpistas usam dados processuais públicos e o WhatsApp para se passar por advogados e enganar clientes. Canais oficiais definidos, confirmação de pagamento e equipe treinada são a principal defesa.
A advocacia é uma profissão construída sobre confiança. É essa confiança, no nome do advogado, na seriedade do escritório, na urgência de uma decisão judicial, que criminosos vêm explorando com uma sofisticação cada vez maior.
Nos últimos anos, golpes contra advogados e seus clientes deixaram de ser casos isolados para se tornarem uma ameaça recorrente em escritórios de todos os tamanhos.
O problema não é apenas financeiro. Quando um golpista usa o nome de um escritório para enganar um cliente, quem paga o preço não é só a vítima direta: é também a reputação, a credibilidade e, em muitos casos, a responsabilidade legal do escritório envolvido.
Neste artigo, você vai entender por que a advocacia se tornou um alvo tão atrativo, quais são os golpes mais comuns hoje no Brasil, como identificar os sinais de alerta e, principalmente, como estruturar um protocolo de proteção para o escritório e para os clientes: antes, durante e depois de um incidente.
Continue a leitura!
Por que escritórios de advocacia se tornaram alvos de golpes?
Advogados lidam diariamente com três elementos extremamente valiosos para criminosos: dados pessoais sensíveis, movimentações financeiras e clientes emocionalmente vulneráveis, muitas vezes aguardando uma decisão que pode mudar suas vidas.
Some-se a isso um fator estrutural: boa parte das informações processuais no Brasil é pública. Com poucas buscas nos portais dos tribunais, qualquer pessoa consegue descobrir quem é o cliente de um processo, qual valor está em disputa, em que fase o caso se encontra e qual advogado o representa.
Para um golpista, esses dados funcionam como um roteiro pronto. Ele sabe o nome do cliente, sabe o nome do advogado, sabe o número do processo e sabe, aproximadamente, quanto dinheiro está envolvido.
Com essas informações, ele consegue montar uma abordagem extremamente convincente, a ponto de enganar até clientes atentos e, em alguns casos, os próprios profissionais do escritório.
A isso se soma o crescimento do uso de aplicativos de mensagem no dia a dia jurídico. WhatsApp virou canal informal de contato entre advogados e clientes em praticamente todo o país, o que multiplicou as oportunidades de clonagem, spoofing e personificação.
Quais são os golpes mais comuns contra advogados e clientes?
Golpe do falso advogado
É o golpe do falso advogado, um dos golpes que mais crescem no país. O criminoso se passa pelo advogado responsável pelo caso, ou por um sócio, colega de escritório ou "representante" do processo, e entra em contato com o cliente solicitando um pagamento urgente, geralmente via Pix, para liberar valores, antecipar custas ou "evitar o arquivamento do processo".
A OAB de São Paulo já registrou mais de 3 mil denúncias desse tipo de fraude desde 2024, o que dá uma ideia da escala do problema.
Clonagem ou falsificação do WhatsApp do escritório
Golpistas criam perfis falsos usando a foto e o nome do advogado, ou até clonam o número real por meio de técnicas de spoofing junto às operadoras. A partir daí, iniciam conversas com clientes como se fossem o próprio profissional, pedindo dados ou pagamentos.
Phishing por e-mail
O phishing jurídico costuma simular comunicações oficiais de tribunais, do PJe ou da Receita Federal, induzindo o advogado a clicar em um link malicioso ou baixar um anexo infectado.
Diferente de um phishing genérico, esses e-mails costumam incluir dados reais do processo, nomes de juízes e jargões técnicos, o que aumenta muito a chance de sucesso do ataque, inclusive contra profissionais experientes.
Boletos e dados bancários adulterados
Uma variação comum envolve o envio de boletos ou chaves Pix falsificadas, seja para clientes (cobrando honorários "atrasados") seja para o próprio escritório (simulando cobranças de fornecedores ou parceiros). A diferença costuma estar em pequenos detalhes: um dígito trocado, um CNPJ levemente diferente, um domínio de e-mail quase idêntico ao original.
Falsas solicitações internas
Nesse golpe, o criminoso finge ser um sócio, gestor ou colega de trabalho (por e-mail, WhatsApp ou até ligação) pedindo acesso a documentos, sistemas ou informações restritas com urgência.
A abordagem aposta na hierarquia interna: um estagiário ou assistente dificilmente questiona um pedido que parece vir de um sócio do escritório.
Roubo ou vazamento de documentos
Pode acontecer por invasão de sistemas, erro humano (como o envio de um documento sigiloso para o destinatário errado) ou compartilhamento inadequado de arquivos em canais sem controle de acesso. O resultado é o mesmo: exposição de informações protegidas por sigilo profissional e, dependendo do caso, dados pessoais sujeitos à LGPD.
Quais sinais podem indicar uma tentativa de golpe?
A maioria dos golpes contra advogados segue um padrão parecido, baseado em engenharia social: a manipulação psicológica da vítima em vez da invasão técnica de sistemas.
Alguns sinais ajudam a identificar uma tentativa de fraude:
- Senso de urgência artificial: mensagens como "você tem 24 horas para pagar ou perde o processo" são clássicas desse tipo de golpe. A pressão do tempo reduz a capacidade de análise da vítima.
- Autoridade simulada: uso de números de OAB, nomes de juízes ou desembargadores e jargões jurídicos para transmitir credibilidade.
- Solicitação de pagamento por canal informal: pedidos de Pix, transferência ou dados bancários via WhatsApp ou e-mail, fora dos canais formais do escritório.
- Pequenas inconsistências: endereços de e-mail com domínios quase idênticos ao oficial, erros de ortografia, números de telefone diferentes dos habituais.
- Pedido de dados sensíveis: solicitação de senha, dados bancários ou documentos por mensagem, algo que um advogado ou tribunal legítimo dificilmente faria.
Se qualquer um desses sinais aparecer, o próximo passo nunca deve ser agir, mas sim confirmar no canal oficial de comunicação.
Como proteger o escritório de advocacia contra golpes?
Não é preciso ter uma equipe de TI dedicada para reduzir drasticamente o risco de golpes. Um conjunto de práticas simples, aplicadas com consistência, já muda o cenário de segurança do escritório.
Defina canais oficiais de comunicação
Deixe claro, desde o início do contrato, quais são os meios oficiais de contato do escritório, um e-mail institucional e um número verificado de WhatsApp, por exemplo. Quando o cliente sabe exatamente por onde o escritório se comunica, qualquer mensagem fora desse padrão já soa suspeita.
Crie uma regra para confirmação de pagamentos
Estabeleça como regra interna que nenhuma cobrança é feita apenas por mensagem informal. Toda solicitação de pagamento deve estar amparada por contrato ou nota de honorários, e qualquer pedido fora do padrão deve ser confirmado por telefone, usando um número previamente validado (nunca o número informado na própria mensagem suspeita).
Ative a autenticação em dois fatores
Habilite a autenticação em dois fatores (2FA) em e-mail, sistemas jurídicos, redes sociais e qualquer ferramenta que armazene dados de clientes. É uma das medidas mais simples e, ao mesmo tempo, mais eficazes contra o acesso indevido a contas.
Controle os acessos da equipe
Nem todo colaborador precisa ter acesso a todos os processos e documentos do escritório. Defina níveis de permissão de acordo com a função de cada pessoa, reduzindo o volume de informação exposta caso uma credencial seja comprometida.
Centralize documentos e informações
Evite espalhar contratos, procurações e dados de clientes entre e-mails pessoais, grupos de WhatsApp e pastas soltas no computador. Centralizar tudo em uma plataforma com controle de acesso reduz o risco de vazamento e facilita auditar quem acessou o quê.
Mantenha sistemas e dispositivos atualizados
Boa parte das atualizações de software existe justamente para corrigir vulnerabilidades de segurança. Mantenha sistemas operacionais, antivírus e aplicativos sempre atualizados, e evite acessar sistemas do escritório em redes Wi-Fi públicas.
Treine todas as pessoas do escritório
A tecnologia sozinha não resolve o problema: estima-se que cerca de 21% das violações de dados ocorrem por erro humano. Sócios, advogados, estagiários e equipe administrativa precisam entender como esses golpes funcionam, quais sinais observar e o que fazer diante de uma suspeita. Um escritório treinado é, hoje, uma das defesas mais eficazes contra a engenharia social.
No Bate-Papo Aurum, Felipe Palhares, referência internacional em proteção de dados, traduz essa experiência em aprendizados diretos para a advocacia:
Como orientar os clientes para evitar o golpe do falso advogado?
Grande parte dos golpes contra clientes acontece porque eles não sabem, com clareza, como o escritório se comunica de verdade. Por isso, orientar o cliente desde o primeiro atendimento é uma medida simples e poderosa:
- Explique, logo no início, quais são os canais oficiais de contato e reforce que cobranças nunca serão feitas apenas por mensagem informal.
- Avise que criminosos podem usar dados reais do processo: isso não é garantia de legitimidade.
- Recomende que qualquer solicitação de pagamento seja confirmada diretamente com o escritório, por telefone, antes de qualquer transferência.
- Indique ferramentas de verificação, como o ConfirmADV, disponibilizado pela OAB, que permite checar a identidade de um advogado antes de realizar um pagamento.
Esse tipo de orientação custa poucos minutos no atendimento inicial, mas pode evitar prejuízos financeiros e desgastes na relação entre escritório e cliente.
O que fazer quando o escritório ou um cliente é vítima de golpe?
Mesmo com boas práticas em vigor, nenhum escritório está 100% imune. Por isso, ter um plano de resposta é tão importante quanto a prevenção. Diante de um golpe confirmado, alguns passos ajudam a conter o dano:
- Registre um boletim de ocorrência o quanto antes, reunindo todas as provas disponíveis: prints de mensagens, comprovantes, números de telefone e contas utilizadas pelos golpistas.
- Comunique o incidente internamente, documentando o que aconteceu, como foi identificado e quais dados podem ter sido expostos.
- Avalie se houve exposição de dados pessoais. Se sim, verifique a necessidade de comunicação à ANPD, conforme prevê a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
- Avise outros clientes que possam estar em risco, especialmente se o golpe envolveu o nome do escritório ou de um advogado específico.
- Revise as brechas que permitiram o golpe: foi um canal de comunicação mal definido? Falta de confirmação de identidade? Uma senha fraca? Use o incidente como ponto de partida para reforçar o protocolo.
Como agir quando criminosos usam o nome do escritório?
Quando o golpe não atinge diretamente o escritório, mas usa seu nome para enganar terceiros, a resposta rápida é o que evita que o problema se espalhe:
- Notifique formalmente os clientes ativos, explicando que existe uma tentativa de fraude em curso e reforçando quais são os canais oficiais de contato.
- Denuncie perfis falsos nas redes sociais e solicite a remoção junto às plataformas.
- Registre boletim de ocorrência, mesmo que o escritório não tenha sofrido prejuízo financeiro direto: o registro ajuda a rastrear os golpistas e protege juridicamente a banca.
- Considere um comunicado público (em redes sociais ou no site do escritório) alertando sobre o golpe, o que ajuda a proteger tanto clientes atuais quanto pessoas que possam ser abordadas futuramente.
Como aplicar um checklist de segurança no seu escritório?
Colocar tudo isso em prática fica mais fácil com um roteiro objetivo em mãos. A Aurum preparou um checklist gratuito de segurança digital para escritórios de advocacia e para clientes, reunindo os principais pontos de atenção em canais de comunicação, gestão de acessos, backup de dados e resposta a incidentes, para que você possa revisar a segurança do seu escritório item por item.
Baixe aqui o checklist gratuito de segurança digital da Aurum.
Como a tecnologia ajuda a aumentar a segurança do escritório?
Nenhuma ferramenta é capaz de eliminar por completo o risco de golpes: a engenharia social explora justamente o fator humano, e isso nenhum software resolve sozinho. Mas a tecnologia certa reduz significativamente as brechas que os criminosos exploram.
Um software jurídico seguro como o Astrea, por exemplo, ajuda o escritório a centralizar documentos e processos em um ambiente único, com controle granular de acessos por perfil de usuário, o que dificulta que um golpista finja ser um colaborador interno e consiga informações restritas.
Também facilita a auditoria de quem acessou cada documento e quando, o que é essencial tanto para investigar um incidente quanto para demonstrar conformidade com a LGPD.
Combinado a canais de comunicação bem definidos, autenticação em dois fatores e uma equipe treinada, esse tipo de estrutura tecnológica forma uma camada adicional de proteção: não uma solução mágica, mas uma redução real de risco no dia a dia do escritório.
Perguntas frequentes sobre golpes contra advogados
É possível recuperar o dinheiro perdido em um golpe contra advogados?
Em alguns casos, sim. Se o pagamento foi feito via Pix, o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central permite solicitar o bloqueio dos valores em até 80 horas após a fraude, desde que a vítima registre a ocorrência e acione o banco rapidamente. Se houver falha comprovada na segurança da instituição financeira, como abertura de conta fraudulenta sem verificação adequada, também é possível buscar indenização por danos materiais e morais na Justiça, com o apoio de um advogado.
O escritório pode ser responsabilizado se um golpista usar seu nome sem autorização?
Em regra, não: o escritório não responde pelos atos de terceiros que se passam por ele sem qualquer participação ou falha de sua parte. A situação muda se ficar comprovada negligência, por exemplo, se o vazamento de dados que alimentou o golpe teve origem em falha interna de segurança do próprio escritório. Por isso, manter boas práticas de proteção de dados e conformidade com a LGPD funciona também como proteção jurídica para o negócio.
Como verificar se um advogado é realmente cadastrado na OAB?
A forma mais simples é usar o ConfirmADV, plataforma da OAB Nacional que permite checar se o profissional está regularmente inscrito, com validação por dois fatores enviada ao e-mail cadastrado no Conselho. Também é possível fazer a consulta diretamente no site da seccional estadual da OAB. Antes de qualquer pagamento ou envio de dados, vale confirmar a identidade do profissional por um desses canais oficiais.
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