MERCADO JURÍDICO
Brenner e Caletti aposta em uma advocacia artesanal para resolver problemas empresariais complexos
Combinando experiência corporativa, atuação acadêmica e uma visão cada vez mais consultiva da advocacia, banca gaúcha constrói modelo baseado em proximidade com o empresário, soluções sob medida e profissionais experientes.
Em um mercado jurídico cada vez mais marcado pela escala, pela tecnologia e pela inteligência artificial, a Brenner e Caletti escolheu um caminho que pode parecer, à primeira vista, menos óbvio: fazer menos trabalho de volume e dedicar mais tempo aos problemas que exigem experiência, estratégia e compreensão profunda do negócio.
A proposta da banca, formada a partir da união das trajetórias dos sócios Matheus Dieterich Espíndola Brenner e Eduardo Viana Caletti, parte de uma premissa simples, mas cada vez mais relevante no ambiente empresarial: o advogado precisa compreender a empresa antes de propor a solução jurídica.
Hoje, o escritório conta com cerca de 25 profissionais dedicados ao atendimento de pessoas jurídicas, com atuação nas áreas de Direito Tributário, Direito Societário, Direito Trabalhista, Recuperação Judicial e hard cases. Segundo os sócios, a estrutura foi desenhada para fugir do modelo de advocacia de massa e privilegiar trabalhos que demandam análise individualizada, atuação estratégica e dedicação técnica.
Essa escolha também ajuda a explicar a origem da sociedade.
Duas trajetórias que se encontraram
A história da Brenner e Caletti começa, em boa medida, com um reencontro.
Depois de passar seis anos em São Paulo, Matheus Brenner decidiu retornar ao Rio Grande do Sul, em 2018, com o objetivo de retomar sua conexão com o mercado gaúcho. Foi nesse processo que voltou a se aproximar de Eduardo Viana Caletti, com quem já havia compartilhado experiências acadêmicas e profissionais.
Mais do que uma aproximação entre dois advogados, a parceria surgiu da percepção de que as trajetórias dos dois eram complementares. Brenner trazia uma experiência marcada pela atuação corporativa e por questões estratégicas complexas, enquanto Caletti havia construído uma trajetória mais acadêmica e uma advocacia descrita por ele próprio como personalizada e artesanal.
"São perfis completamente complementares", resume Caletti ao explicar a formação da sociedade. A combinação, segundo ele, permite aproximar a compreensão sobre o que o empresário efetivamente espera de seu advogado da capacidade técnica necessária para entregar soluções jurídicas alinhadas ao negócio.
É justamente nessa intersecção que está o posicionamento da banca.
Quando o jurídico precisa falar a língua do negócio
Para os sócios, concentrar a atuação em empresas não foi apenas uma escolha mercadológica. É consequência natural de mais de duas décadas de experiência trabalhando com organizações e empresários.
A lógica é que o Direito empresarial não pode operar isoladamente da realidade econômica da companhia. Uma decisão jurídica pode afetar caixa, operação, estratégia, reputação e continuidade do negócio. Por isso, compreender o contexto empresarial passa a ser tão importante quanto dominar a legislação aplicável.
"A necessidade do mundo jurídico é falar essa mesma linguagem, ter essa mesma compreensão", afirma Matheus Brenner.
O escritório procura atuar na identificação da solução mais adequada para cada situação, em vez de simplesmente responder ao problema jurídico depois que ele já está instalado.
É uma mudança de perspectiva: o advogado deixa de ser apenas o profissional acionado quando surge um conflito e passa a funcionar como parte da estrutura estratégica da empresa.
Da advocacia reativa para uma atuação consultiva
Essa transformação também está relacionada a uma mudança mais ampla que os sócios identificam no mercado.
Na avaliação de Eduardo Caletti, o futuro da advocacia tende a ser menos dependente do contencioso de massa e mais concentrado em trabalhos consultivos e personalizados. Para ele, as atividades que envolvem volume e repetição estão entre as mais suscetíveis aos impactos da inteligência artificial, enquanto questões complexas continuam exigindo experiência, julgamento e curadoria humana.
A tese ganha relevância em um cenário empresarial no qual as fronteiras entre Direito, estratégia e gestão estão cada vez mais próximas.
A reforma tributária, por exemplo, já produz uma demanda crescente por assessoramento jurídico. Ao mesmo tempo, o ambiente de juros elevados e pressão econômica aumenta a necessidade de soluções relacionadas à recuperação de empresas e às chamadas special situations.
Para a Brenner e Caletti, esses movimentos reforçam a importância de uma advocacia capaz de compreender não apenas a norma, mas o momento econômico e empresarial em que aquela norma será aplicada.
O paradoxo da inteligência artificial
Se a inteligência artificial promete aumentar produtividade e reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas, ela também cria uma questão mais profunda para a advocacia: como formar os profissionais que serão responsáveis pelas decisões jurídicas do futuro?
É nesse ponto que Matheus Brenner e Eduardo Caletti apresentam uma das visões mais críticas da entrevista.
Brenner reconhece a IA como uma ferramenta que estará cada vez mais presente nas atividades empresariais e humanas, mas alerta para os riscos de utilizar seus resultados sem capacidade crítica para avaliá-los. Segundo ele, a tecnologia pode produzir respostas aparentemente adequadas, mas pouco aprofundadas ou equivocadas, exigindo do profissional capacidade para questionar, validar e, quando necessário, descartar aquilo que foi produzido pela ferramenta.
Caletti acrescenta uma preocupação que vai além da eficiência: a formação das novas gerações de advogados.
A carreira jurídica tradicionalmente pressupõe uma curva de aprendizado. O profissional começa como júnior, desenvolve repertório, passa a atuar como pleno e, posteriormente, alcança posições de maior senioridade. Esse processo envolve exposição a problemas, elaboração de raciocínio, análise de cenários e construção de criticidade.
Na avaliação do sócio, se a inteligência artificial substituir justamente as tarefas pelas quais os profissionais mais jovens desenvolvem essa experiência, existe o risco de criar um vazio na formação dos futuros advogados.
É uma contradição que resume parte do desafio atual da profissão: a tecnologia pode acelerar a entrega, mas não necessariamente acelera a maturidade profissional.
Uma banca construída para problemas que não cabem em modelos prontos
É nesse contexto que ganha força o conceito de advocacia artesanal defendido pelos sócios.
O escritório trabalha com uma estrutura que não tem como objetivo o contencioso de massa.
A escolha por uma carteira mais enxuta permite que os profissionais dediquem mais horas à análise de cada caso e à construção de soluções personalizadas.
Esse modelo também está associado ao perfil da equipe. Os sócios destacam a presença de profissionais com mais de duas décadas de carreira em áreas como societário e trabalhista, além de uma preocupação com formação acadêmica e capacidade técnica.
Na prática, a banca busca se posicionar em um espaço em que conhecimento jurídico e experiência empresarial se encontram.
"Resolver problemas e não criar problemas"
Se existe uma frase capaz de sintetizar a cultura da Brenner e Caletti, ela aparece na definição de Eduardo Caletti sobre o DNA da sociedade.
Para ele, o escritório procura funcionar quase como um jurídico interno da empresa. "Resolver problemas e não criar problemas" é, em sua definição, uma das principais características da cultura da banca.
A ideia parece simples, mas representa uma mudança importante na relação entre escritório e cliente.
O empresário não necessariamente pensa em prazos processuais, ritos jurídicos ou na lógica tradicional da formação acadêmica. Ele pensa em operação, caixa, contratos, funcionários, riscos, expansão e continuidade do negócio.
Cabe ao advogado, portanto, compreender esse contexto e adaptar a entrega jurídica à realidade empresarial.
"Compreender a estrutura da empresa, compreender o tempo de entrega, compreender as demandas, compreender o momento do empresário, momento da economia" é, segundo Caletti, parte essencial dessa cultura.
O próximo capítulo: crescer sem perder a essência
A ambição da Brenner e Caletti para os próximos cinco anos combina crescimento e uma preocupação central: preservar a qualidade da entrega.
Em um mercado no qual tecnologia e escala pressionam os modelos tradicionais de prestação de serviços jurídicos, a Brenner e Caletti aposta que existe valor econômico, e estratégico, em preservar aquilo que não pode ser facilmente automatizado: experiência, criticidade, proximidade e compreensão do negócio.
A tese é particularmente relevante para a advocacia empresarial. À medida que ferramentas de inteligência artificial assumem tarefas repetitivas e aumentam a velocidade de produção de informações, o diferencial tende a migrar para a capacidade de interpretar cenários, selecionar caminhos e tomar decisões diante de problemas para os quais não existe uma resposta pronta.
É justamente nesse território que a Brenner e Caletti pretende construir sua posição no mercado: menos volume, mais complexidade; menos respostas padronizadas, mais estratégia; e uma advocacia que, antes de entregar uma solução jurídica, procura entender o negócio que precisa ser protegido.
Nas palavras dos sócios, essa talvez seja a equação mais importante: crescer sem abrir mão do modelo que deu origem à sociedade, uma advocacia próxima do empresário, tecnicamente sofisticada e construída para resolver problemas que não cabem em respostas prontas.
Equipe editorial responsável pela apuração, produção e publicação de notícias, análises e conteúdos sobre os principais acontecimentos do Direito no Brasil.
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