A nova geração da advocacia além do diploma
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CARREIRA JURÍDICA

A nova geração de advogados: os desafios e as oportunidades para quem está construindo carreira na advocacia

Para Homero Silva Neto, construir uma trajetória sólida no Direito exige mais do que domínio técnico: capacitação, networking, habilidades multidisciplinares, tecnologia e visão de negócio passaram a fazer parte da formação de um advogado preparado para o mercado.

A nova geração de advogados: os desafios e as oportunidades para quem está construindo carreira na advocacia
Créditos da imagem: Acervo Pessoal

Durante décadas, a ideia de uma carreira bem-sucedida na advocacia esteve associada a caminhos relativamente conhecidos: ingressar em um grande escritório, conquistar uma aprovação em concurso público ou construir uma banca própria. Para a nova geração, entretanto, o cenário é menos linear, e justamente por isso, mais aberto a possibilidades.

A transformação do mercado jurídico exige dos jovens advogados uma formação que ultrapasse os limites da faculdade de Direito. Conhecimento técnico continua sendo indispensável, mas já não é suficiente para garantir uma trajetória consistente. É preciso compreender pessoas, negócios, tecnologia, relacionamento e até mesmo a lógica empresarial por trás da própria advocacia.

Essa é a avaliação de Homero Silva Neto, advogado e sócio do GMPR Advogados, presidente do movimento Força da Advocacia e atual presidente da Comissão da Advocacia Jovem da OAB Goiás. Para ele, construir uma carreira jurídica sólida é resultado da combinação entre diferentes pilares, e a capacidade de identificar esses pilares ainda no início da trajetória pode fazer diferença significativa.

A formação que termina na faculdade é apenas o começo

Na visão de Homero, existe um descompasso importante entre aquilo que a faculdade de Direito tradicionalmente oferece e o que o mercado espera de um profissional recém-formado.

A graduação proporciona uma base relevante em Direito material e processual, mas nem sempre prepara o estudante para os desafios concretos da profissão. O resultado é um jovem advogado que pode dominar conceitos jurídicos, mas ainda desconhece habilidades necessárias para atuar profissionalmente.

"Desde a base, temos uma construção técnica na faculdade de Direito, mas quando se fala em uma construção prática e para fins mercadológicos, isso é um grande déficit que a gente tem como realidade no Brasil", explica.

Esse intervalo entre formação acadêmica e prática profissional ajuda a explicar por que os primeiros anos da carreira podem ser marcados por insegurança. O recém-formado chega ao mercado sem necessariamente compreender quais competências ainda precisa desenvolver, justamente porque muitas delas não foram apresentadas durante a graduação.

Para Homero, a construção profissional começa pela capacitação técnica, mas não termina nela. Networking, habilidades laterais e ética também fazem parte da equação.

Não existe uma única fórmula para construir uma carreira

Se o mercado jurídico se tornou mais complexo, também ficou menos adequado falar em um único modelo de sucesso.

Para alguns profissionais, empreender e colocar o próprio nome na porta de um escritório continua sendo o objetivo. Para outros, a experiência em uma banca estruturada pode representar a melhor estratégia de desenvolvimento.

Homero defende justamente essa pluralidade de caminhos. Segundo ele, não existe uma carreira "certa" ou "errada", mas trajetórias diferentes, com ônus e bônus distintos.

Há ainda uma terceira possibilidade: o intraempreendedorismo. O advogado pode desenvolver uma mentalidade empreendedora dentro de uma estrutura já existente, criando projetos, assumindo responsabilidades e construindo protagonismo sem necessariamente precisar abrir imediatamente o próprio escritório.

Essa alternativa ganha relevância especialmente diante da insegurança que acompanha os primeiros anos da profissão. Para Homero, o déficit de experiência prática pode fazer com que o jovem advogado tenha receio de colocar o próprio nome no mercado, levando-o a buscar inicialmente escritórios que ofereçam estrutura e oportunidades de desenvolvimento.

Do "pegar tudo" ao desenvolvimento de um nicho

Outro dilema frequente entre jovens advogados está relacionado à especialização.

A resposta, para Homero, não está em escolher entre ser especialista ou multidisciplinar, mas em compreender que essas características podem coexistir em momentos diferentes da carreira.

No início, segundo ele, o jovem advogado muitas vezes precisa aceitar diferentes demandas para construir experiência e garantir sua sobrevivência profissional. Esse movimento, porém, deve ser feito com cautela e, sempre que possível, acompanhado de parcerias com profissionais mais experientes.

Com o amadurecimento da carreira, surge a oportunidade de escolher um nicho e aprofundar a expertise em determinada área. É justamente essa especialização que pode permitir, no futuro, uma maior valorização do trabalho profissional.

Isso não significa abandonar uma visão ampla. O Direito é, por natureza, multidisciplinar, e áreas distintas frequentemente se conectam. Tributário e empresarial são um exemplo citado por Homero.

A lógica, portanto, é construir profundidade sem perder a capacidade de enxergar o contexto.

A tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser requisito

Poucas transformações ilustram tão bem a mudança no perfil profissional quanto a inteligência artificial.

Para Homero, a capacidade de utilizar ferramentas de IA já deixou de ser um diferencial e passou a integrar o conjunto de competências necessárias ao exercício contemporâneo da advocacia. Ele compara essa mudança à incorporação de ferramentas como Word, Excel e PowerPoint ao cotidiano profissional.

A razão é objetiva: a tecnologia permite produzir entregas mais precisas e rápidas. Mas existe uma condição fundamental: a tecnologia não pode substituir o olhar humano.

Na avaliação do advogado, delegar integralmente a atividade jurídica à inteligência artificial representa um risco. A revisão, a supervisão e a capacidade crítica continuam sendo responsabilidades humanas.

E há outro elemento que a tecnologia não elimina: a relação entre advogado e cliente.

"A advocacia é sobre pessoas", resume Homero. Empatia, percepção de urgência e capacidade de estabelecer conexões continuam sendo fundamentais para compreender o problema apresentado pelo cliente e construir uma solução jurídica adequada.

Quando a advocacia passa a ser também um negócio

A transformação não acontece apenas na forma como o advogado trabalha. Ela também modifica a maneira como ele deve enxergar a própria estrutura profissional.

Para Homero, a advocacia já se consolidou como negócio. Isso significa compreender que um escritório precisa funcionar como uma empresa, com procedimentos, fluxos, equipes, divisão de atribuições, recrutamento e gestão.

O conhecimento jurídico permanece no centro da atividade, mas deixa de representar toda a dimensão necessária para administrar uma organização.

Nesse cenário, o advogado completo é aquele que, além de dominar legislação, doutrina e jurisprudência, desenvolve competências relacionadas ao empreendedorismo e à gestão.

A mudança de mentalidade é especialmente relevante para uma nova geração que pretende construir escritórios mais estruturados e sustentáveis. A excelência jurídica precisa estar acompanhada de processos capazes de transformar conhecimento em entrega, relacionamento e resultado.

Os três pilares para começar uma trajetória sólida

Para quem ainda não encontrou seu nicho ou não sabe exatamente qual caminho seguir, Homero não recomenda esperar pela resposta perfeita.

Sua orientação é começar pela construção de três pilares: capacitação técnica, habilidades laterais e networking.

A capacitação pode partir de conhecimentos fundamentais para diferentes áreas. As habilidades laterais envolvem competências como oratória e comunicação escrita, inclusive a capacidade de construir uma petição que consiga traduzir a dor do cliente e apresentar a solução jurídica de maneira objetiva, sem perder informações essenciais.

Já o networking exige exposição e relacionamento: participar de eventos, palestrar, produzir conteúdo e ampliar a rede de contatos.

É uma estratégia particularmente relevante para quem ainda não definiu uma especialidade. Em vez de esperar pela definição completa de uma carreira, o jovem advogado pode começar a construir os fundamentos que serão úteis independentemente do caminho escolhido.

O primeiro grande desafio pode ser descobrir o que se quer fazer

A própria trajetória de Homero ajuda a ilustrar como uma carreira jurídica pode mudar de direção.

Ao entrar na faculdade de Direito, seu objetivo inicial era tornar-se delegado de polícia. A mudança aconteceu durante a graduação, quando uma experiência acadêmica lhe apresentou uma perspectiva diferente sobre a advocacia.

Por isso, quando questionado sobre qual decisão teria tomado de maneira diferente, Homero não aponta necessariamente um erro profissional específico. Se pudesse voltar ao início, teria buscado compreender mais cedo qual caminho gostaria de seguir.

A reflexão revela uma característica importante da nova geração: em um mercado com mais possibilidades, escolher também se tornou uma competência.

Para Homero, encontrar essa direção logo nos primeiros períodos da faculdade poderia ter organizado mais cedo suas decisões e aproximado sua trajetória do objetivo profissional desejado.

Uma advocacia mais ampla e mais humana

A nova geração de advogados chega a um mercado diferente daquele encontrado pelas gerações anteriores. A tecnologia acelerou processos, novas áreas surgiram, os escritórios passaram a incorporar estruturas empresariais e os clientes se tornaram mais exigentes.

Nesse ambiente, a formação jurídica tradicional continua sendo indispensável, mas precisa ser acompanhada por uma visão mais ampla sobre a profissão.

O advogado do futuro não será apenas aquele que conhece a lei. Será também aquele capaz de compreender o negócio, identificar oportunidades, construir relacionamentos, utilizar tecnologia com responsabilidade, comunicar-se com clareza e administrar a própria carreira.

Ao mesmo tempo, quanto mais a tecnologia avança, mais valor ganha aquilo que permanece essencialmente humano: interpretar contextos, compreender pessoas e exercer julgamento.

É nesse equilíbrio entre técnica e estratégia, especialização e visão multidisciplinar, tecnologia e humanidade que Homero enxerga uma das principais oportunidades para quem está começando.

A carreira jurídica deixou de ser uma estrada com poucos caminhos possíveis. Para a nova geração, o desafio é justamente aprender a construir o próprio percurso, com preparo para mudar de direção quando necessário, mas com clareza suficiente para saber onde se pretende chegar.

Redação LawLetter
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Equipe editorial responsável pela apuração, produção e publicação de notícias, análises e conteúdos sobre os principais acontecimentos do Direito no Brasil.

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