A advocacia empresarial que deixou de ser artesanal
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MERCADO JURÍDICO

A advocacia empresarial que deixou de ser artesanal

Para Eduardo Vieira, a transformação do mercado jurídico exige que escritórios deixem os modelos baseados só na técnica e passem a operar com gestão, processos, tecnologia e visão de negócio.

A advocacia empresarial que deixou de ser artesanal
Créditos da imagem: Acervo Pessoal

Durante décadas, a advocacia empresarial foi construída sobre uma lógica essencialmente técnica. O advogado era procurado para interpretar a legislação, solucionar problemas e oferecer segurança jurídica diante das decisões tomadas pela empresa, papel que continua sendo indispensável, mas que já não é suficiente para responder à complexidade dos negócios contemporâneos.

A transformação do ambiente empresarial vem deslocando o jurídico para uma posição mais próxima da estratégia. Em vez de atuar apenas depois que o problema aparece, o advogado passa a participar da construção das decisões, da identificação de riscos e da própria governança das organizações.

Para Eduardo Vieira, advogado e sócio-fundador do Vieira e Serra, essa mudança também impõe uma transformação dentro dos próprios escritórios, porque a atividade jurídica precisa ser compreendida como um negócio, com processos, gestão de conhecimento, eficiência e capacidade de crescer sem comprometer a qualidade da entrega. É uma mudança que vai além da adoção de novas ferramentas e envolve rever a própria maneira como a advocacia é estruturada.

Quando o jurídico passa a fazer parte da estratégia

Na visão de Eduardo, o departamento jurídico deixou de ocupar uma posição exclusivamente reativa dentro das empresas.

"Nos últimos anos, o setor jurídico deixou de ser apenas um resolvedor de problemas para se tornar um componente estratégico nas decisões empresariais", afirma.

A mudança acompanha a própria evolução das organizações, já que empresas submetidas a ambientes regulatórios mais complexos, novas tecnologias e decisões cada vez mais rápidas precisam de uma assessoria capaz de compreender não apenas o Direito, mas também as consequências empresariais de cada escolha. Nesse cenário, o advogado empresarial precisa conhecer o funcionamento do negócio com profundidade semelhante àquela exigida do próprio empresário: não basta dominar a legislação aplicável, é preciso entender como a empresa ganha dinheiro, onde estão seus riscos, quais são seus objetivos e quais impactos uma decisão jurídica pode produzir sobre a operação.

É essa proximidade que, segundo Eduardo, permite ao Vieira e Serra atuar como parceiro estratégico dos clientes, participando das decisões e buscando soluções que atravessem diferentes áreas, como societário, tributário e trabalhista.

Da figura do artesão à lógica de uma companhia

Se o papel do advogado mudou, a estrutura dos escritórios também precisa acompanhar essa transformação. Eduardo identifica um modelo tradicional da advocacia que compara ao trabalho de um "artesão", com profissionais altamente especializados produzindo individualmente suas entregas, muitas vezes sem uma estrutura de processos capaz de organizar e multiplicar o conhecimento produzido, e para ele esse modelo encontra limites quando o escritório cresce.

A alternativa é incorporar uma lógica mais próxima à de uma companhia, com processos definidos, gestão de conhecimento e mecanismos que permitam aumentar a eficiência sem abrir mão da qualidade técnica.

A mudança não significa transformar a advocacia em uma operação industrial, porque o ponto está em criar estrutura para que o conhecimento não fique restrito a indivíduos e para que a qualidade da entrega possa ser preservada à medida que o escritório se desenvolve.

Essa preocupação também está relacionada à gestão de erros. No Vieira e Serra, segundo Eduardo, existe uma premissa interna de que os erros precisam gerar aprendizado, com a ideia de admitir apenas "erros inéditos": se determinado problema já aconteceu, a organização deve incorporar aquele aprendizado para evitar que ele se repita. A gestão, nesse sentido, deixa de ser apenas administrativa e passa a funcionar como mecanismo de evolução técnica.

A inteligência artificial muda o valor da experiência

Poucas transformações recentes provocam tanta discussão no mercado jurídico quanto a inteligência artificial. Para Eduardo, porém, a tecnologia não deve ser interpretada simplesmente como uma ameaça à profissão, já que o impacto mais relevante está na maneira como ela modifica as competências que serão valorizadas.

A IA tende a acelerar tarefas, facilitar o acesso à informação e alterar a forma como determinados trabalhos são produzidos, o que exige adaptação dos profissionais, mas também pode aumentar o valor da experiência acumulada. Na avaliação do advogado, a tecnologia não substituirá os advogados, mas favorecerá aqueles que possuem capacidade de compreender problemas complexos, interpretar contextos e utilizar as ferramentas de maneira estratégica.

A consequência pode ser importante para a formação das novas gerações, porque, se determinadas tarefas que tradicionalmente serviam como porta de entrada para jovens advogados passam a ser realizadas com auxílio de inteligência artificial, escritórios precisarão repensar como desenvolvem profissionais menos experientes. A questão deixa de ser apenas contratar e passa a envolver capacitar.

Conhecimento como ativo estratégico

Nesse novo cenário, a gestão do conhecimento ganha uma importância que ultrapassa a organização interna de documentos e informações. O conhecimento acumulado pelo escritório passa a ser um ativo estratégico, e experiências anteriores, decisões, erros, soluções e aprendizados precisam circular internamente para que possam ser transformados em capacidade institucional.

É também por isso que a modernização da advocacia não pode ser reduzida à aquisição de tecnologia: uma ferramenta pode aumentar a velocidade de uma tarefa, mas não substitui uma cultura organizacional capaz de aprender com aquilo que acontece dentro da própria operação. Para Eduardo, a construção dessa cultura foi determinante para que o Vieira e Serra pudesse alcançar ganhos de escala, qualidade e rentabilidade sem tratar o Direito como uma atividade isolada.

A experiência profissional do próprio advogado contribui para essa visão, porque sua trajetória reúne atuação como professor, advogado e liderança em posições institucionais, experiências que, segundo ele, influenciam diretamente a forma como o escritório é administrado.

Crescer não é necessariamente a mesma coisa que expandir

Existe ainda uma questão que costuma acompanhar a discussão sobre escritórios de advocacia: até onde crescer? No mercado jurídico, expansão pode parecer sinônimo natural de sucesso, já que mais advogados, mais clientes, novas estruturas e maior presença geográfica são frequentemente associados à evolução de uma banca.

Eduardo, porém, coloca um limite nessa lógica. O Vieira e Serra não pretende crescer a qualquer custo, e a expansão, em sua visão, deixa de fazer sentido quando ameaça aquilo que sustenta a relação com o cliente: a qualidade do serviço, a proximidade e a capacidade de compreender cada situação para sugerir soluções adequadas. O crescimento, portanto, precisa estar subordinado à qualidade, e não o contrário.

É uma escolha que revela uma compreensão diferente de escala: em vez de medir o desenvolvimento apenas pelo tamanho da estrutura, o escritório passa a considerar a capacidade de preservar sua proposta de valor enquanto cresce.

O advogado diante de um cliente cada vez mais complexo

A transformação da advocacia empresarial também está relacionada à transformação dos próprios clientes, porque empresas não enfrentam problemas isolados. Uma decisão societária pode produzir consequências tributárias, uma questão trabalhista pode afetar a operação, uma alteração regulatória pode modificar a estratégia financeira e uma decisão empresarial pode exigir simultaneamente diferentes especialidades jurídicas, o que aumenta a importância de uma advocacia capaz de enxergar o negócio como um todo.

É justamente nesse contexto que Eduardo coloca a compreensão empresarial como uma das competências fundamentais do advogado contemporâneo, já que a técnica jurídica continua sendo a base da profissão, mas passa a precisar estar conectada à realidade econômica e operacional do cliente. O advogado que conhece apenas a norma pode oferecer uma resposta juridicamente correta, enquanto o advogado que compreende também o negócio consegue participar da construção da decisão.

O futuro exige uma advocacia mais estruturada

A transformação apontada por Eduardo não representa o abandono da essência da advocacia. Ao contrário: trata-se de criar estruturas capazes de preservar a excelência técnica em um ambiente no qual clientes, tecnologias e modelos de negócio mudam em velocidade crescente.

A inteligência artificial, nesse processo, aparece menos como substituta do profissional e mais como um elemento que reorganiza a distribuição de tarefas e redefine o valor do conhecimento humano. A gestão, por sua vez, deixa de ser uma preocupação periférica para se tornar parte da estratégia dos escritórios, e o crescimento passa a ser encarado não como objetivo absoluto, mas como consequência de uma operação capaz de equilibrar eficiência, rentabilidade, conhecimento e qualidade.

No fim, a transformação da advocacia empresarial talvez esteja justamente nessa mudança de perspectiva: o escritório deixa de ser apenas o lugar onde advogados exercem o Direito e passa a ser também uma organização que precisa saber gerir conhecimento, pessoas, tecnologia e estratégia. É nesse equilíbrio entre técnica jurídica e visão de negócio que se desenha o próximo estágio da advocacia empresarial.

Redação Lawletter
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Equipe editorial responsável pela apuração, produção e publicação de notícias, análises e conteúdos sobre os principais acontecimentos do Direito no Brasil.

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