Direito Tributário
Gastos com escola de filho autista podem ser deduzidos integralmente do Imposto de Renda
Gastos com mensalidade escolar de crianças e adolescentes com TEA podem ser equiparados a despesas médicas para fins de dedução integral no Imposto de Renda e repetição de indébito dos últimos cinco anos.
Para famílias de crianças e adolescentes com TEA (Transtorno do Espectro Autista), a mensalidade escolar não é um gasto de educação como outro qualquer. A escola integra uma estrutura essencial de desenvolvimento, adaptação e inclusão: participa da rotina, favorece a socialização, estimula a autonomia e acompanha necessidades específicas da criança. Falar de escola, nesses casos, é falar de cuidado.
E esse peso tem impacto direto no orçamento familiar. Somado a terapias, avaliações e acompanhamentos que já fazem parte da rotina, o custo escolar representa uma despesa elevada e contínua, muitas vezes por anos seguidos.
Como esse gasto vinha sendo tratado até aqui
Até pouco tempo, o tratamento mais comum para os gastos com escola de filho com TEA era o enquadramento como despesa de educação, sujeito ao teto anual de dedução previsto na legislação do Imposto de Renda.
Esse modelo seguia a lógica tradicional da declaração e, por isso, limitava o aproveitamento tributário de um custo que, na realidade dessas famílias, vai muito além de uma despesa escolar comum.
Por que a escola pode ser tratada como despesa médica
A tese que vem sendo sustentada judicialmente é a de que, no caso de crianças e adolescentes com deficiência (categoria que inclui o TEA), o custo escolar não pode ser analisado de forma simplificada, como se fosse apenas ensino. Isso porque a escola, nesses casos, também cumpre função de suporte ao desenvolvimento, à adaptação e à construção da autonomia da criança, o que aproxima essa despesa da natureza de um gasto médico.
A diferença prática é significativa: enquanto despesas com educação têm teto legal de dedução, despesas médicas podem ser deduzidas integralmente, sem limite de valor. Para famílias que já sustentam um custo alto e contínuo com a escola, esse reconhecimento representa um alívio financeiro relevante.
É possível recuperar valores já pagos
Além de corrigir declarações futuras, esse entendimento abre a possibilidade de reaver, via Judiciário, os valores pagos a maior nos últimos cinco anos, o prazo prescricional aplicável à repetição de indébito tributário.
Cada ano sem revisar a declaração pode representar a perda de valores que poderiam ser recuperados: famílias em situação semelhante já conseguiram esse reconhecimento na Justiça e reaver o que foi pago a maior ao longo desse período.
O que é necessário para buscar esse direito
Não basta conhecer a tese jurídica: é fundamental reunir a documentação correta. A comprovação da condição por laudo médico, somada aos recibos e comprovantes emitidos pela instituição de ensino, é o ponto de partida para sustentar o pedido, inclusive quando se trata de instituição regular inclusiva (e não escola especializada).
Atualmente, a Receita Federal tem negado as deduções requeridas diretamente na declaração e, em alguns casos, isso pode levar o contribuinte à malha fina. Ainda assim, com a documentação adequada, é possível buscar no Judiciário o reconhecimento de que esse valor deve receber tratamento de despesa médica, tanto para adequar as declarações futuras quanto para viabilizar a restituição dos últimos cinco anos.
Conclusão
Famílias que arcam com gastos escolares de filhos com TEA têm, hoje, uma tese jurídica consolidada para buscar dedução integral no Imposto de Renda e restituição dos valores pagos a maior nos últimos cinco anos. Com a documentação adequada e orientação jurídica especializada, esse caminho já está disponível.
Thatiane Graseffe é advogada especialista e pós graduada em Direito da Saúde, sócia proprietária da TG Advocacia da Saúde. Atua exclusivamente na área, com ênfase em ações contra operadoras de plano de saúde e demandas junto ao SUS. OAB/SP 310.911
Comentários (0)
Deixe seu comentário