Advocacia além da tela: o valor de conversar com o juiz
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Direito Processual Civil

Advocacia além da tela: peticionar é necessário, conversar também

Entenda por que a conversa direta com o magistrado continua sendo insubstituível para esclarecer pontos sensíveis na era do processo eletrônico e da inteligência artificial.

Por Wilson Assunção 16/10/2026 12:08

Existe uma frase que, na advocacia, parece óbvia: tudo deve estar nos autos.

E está correta. A petição é o instrumento pelo qual o advogado apresenta os fatos, desenvolve sua tese e formula seus pedidos. É por meio dela que se constrói, formalmente, a posição da parte no processo.

Mas a experiência prática tem me mostrado que, em determinadas situações, a petição não é suficiente.

Já tive decisões interlocutórias revertidas depois de uma conversa pessoal com o magistrado. Não porque tenha apresentado um argumento novo ou utilizado algum recurso extraordinário, mas simplesmente porque tive a oportunidade de explicar, de forma objetiva, o que estava acontecendo naquele caso.

Isso me fez refletir sobre uma questão que considero cada vez mais importante: o advogado ainda precisa falar pessoalmente com o juiz?

Minha resposta é sim.

E talvez precise fazê-lo ainda mais agora.

A rotina do Judiciário e o caminho até a decisão

A rotina do Judiciário mudou. O volume de processos aumentou, as equipes dos gabinetes estão cada vez mais envolvidas na triagem e análise dos processos e a tecnologia passou a fazer parte dessa cadeia. Ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas em diferentes atividades de pesquisa, organização e análise de informações.

Antes de chegar ao juiz, uma petição pode passar por filtros, sistemas, servidores e assessores. Isso não significa que o magistrado não conheça o processo ou que não leia as peças relevantes. Significa apenas que o caminho entre a petição protocolada e a decisão judicial pode ser mais complexo do que o advogado imagina.

E há um problema nisso.

O advogado conhece a estratégia do caso, sabe qual é o ponto realmente sensível e, muitas vezes, consegue explicar em poucos minutos aquilo que dezenas de páginas não conseguem transmitir com a mesma clareza.

Não estou defendendo que o advogado substitua a petição por uma conversa de gabinete. Muito menos que o contato pessoal seja utilizado para pressionar o magistrado ou buscar qualquer tratamento privilegiado.

É justamente o contrário.

O despacho de gabinete como elemento complementar

A conversa com o juiz deve complementar os autos, e não substituí-los.

Quando o advogado procura o magistrado para esclarecer uma questão, especialmente diante de uma decisão interlocutória, de uma urgência ou de uma situação processual peculiar, ele pode apresentar oralmente o contexto que talvez tenha se perdido no volume de informações do processo.

E isso exige preparo.

Não se trata de chegar ao gabinete e simplesmente dizer que a decisão está errada. O advogado precisa saber exatamente qual ponto pretende esclarecer, onde está o fundamento nos autos e qual consequência prática decorre daquela decisão.

Também precisa saber ouvir.

Às vezes, uma conversa de cinco minutos permite compreender por que o juiz decidiu daquela maneira. Em outras, permite demonstrar que determinado fato foi interpretado de forma diferente daquela pretendida na petição.

Já vivi situações em que essa conversa mudou o rumo de uma decisão interlocutória.

O valor do elemento humano na era da automação

Por isso, acredito que a advocacia do futuro não será menos presencial por causa da tecnologia. Em alguns aspectos, poderá ser justamente o contrário.

Quanto mais automatizada e volumosa se tornar a análise de processos, maior será o valor daquilo que a tecnologia não substitui completamente: a capacidade do advogado de compreender o caso, identificar o que realmente importa e comunicar isso de maneira clara a quem vai decidir.

Peticionar continua sendo indispensável.

Mas, quando a situação exigir, o advogado também precisa sair da tela, ir ao fórum, entrar no gabinete e conversar.

Porque, no fim, processos são feitos de documentos.

Mas decisões são tomadas por pessoas.

Wilson Assunção
Wilson Assunção Articulista

Advogado Societário, planejamento societário e empresarial, fundador do Wilson Assunção Advogados. Alundo da EFAE

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