Crescimento de Ações Trabalhistas e Compliance Preventivo
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Direito do Trabalho

O crescimento das ações trabalhistas exige uma nova postura das empresas

Com o recorde de condenações trabalhistas e a facilitação da justiça gratuita, o compliance trabalhista preventivo consolida-se como ferramenta indispensável para mitigar passivos e garantir a saúde financeira empresarial.

Por Larissa Ferreira Alves 17/08/2026 10:29

As empresas do país pagaram mais de R$ 50 bilhões em condenações na Justiça do Trabalho em 2025, o maior valor já registrado. Junto com esse recorde financeiro, veio outro dado igualmente relevante: o volume de novas ações trabalhistas cresceu quase 9% em um único ano, somando mais de 2 milhões de processos.

Depois de uma queda expressiva registrada logo após a reforma trabalhista de 2017, a curva voltou a subir com força. Como advogada que atua diariamente na defesa de empresas nesse tipo de disputa, não vejo esses números como uma simples estatística distante: eles são o retrato de um ambiente jurídico que mudou, e que exige das empresas uma postura muito mais preventiva do que reativa.

A virada jurisprudencial e o aumento da litigiosidade

Parte desse movimento tem origem em decisões dos tribunais superiores. O Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional cobrar honorários de sucumbência de quem litiga sob o benefício da Justiça gratuita, e o Tribunal Superior do Trabalho consolidou entendimento de que basta uma autodeclaração de hipossuficiência para obter esse benefício, sem necessidade de comprovação documental. Na prática, isso reduziu significativamente o risco financeiro de ajuizar uma reclamação trabalhista, ampliando o acesso à Justiça (o que é positivo do ponto de vista social), mas também abrindo espaço para uma judicialização mais volumosa, incluindo demandas de menor consistência.

Some-se a isso o crescimento da informalidade e o surgimento de modalidades de prestação de serviço cada vez mais complexas, impulsionadas por plataformas digitais e novos arranjos de trabalho, e temos um cenário em que a exposição das empresas a passivos trabalhistas não para de crescer.

O papel estratégico do compliance trabalhista

Diante desse quadro, insistir num modelo de gestão trabalhista reativo, que só se preocupa com a regularidade das relações de trabalho quando a citação chega, deixou de ser uma opção viável. É aqui que o compliance trabalhista deixa de ser jargão de grande corporação e se torna instrumento de sobrevivência para empresas de todos os portes.

Compliance trabalhista, na prática, significa:

  • Auditar contratos de trabalho e de prestação de serviços;
  • Revisar jornadas e políticas de horas extras;
  • Formalizar processos de admissão e desligamento;
  • Documentar adequadamente questões de saúde e segurança do trabalho;
  • Criar canais internos que previnam, e não apenas remediem, conflitos.

Cada um desses pontos, hoje negligenciado, é assunto para uma ação judicial amanhã.

Mais do que isso, compliance é prova. Num cenário em que basta uma autodeclaração para litigar sem custos, a empresa que tem seus processos internos organizados e documentados chega à audiência em posição de defesa muito mais sólida do que aquela que precisa reconstruir, às pressas, uma história que deveria estar registrada desde o início.

Conclusão

O recorde de R$ 50,7 bilhões não é uma anomalia passageira, é sintoma de uma tendência estrutural. Empresas que tratarem a regularização trabalhista como prioridade estratégica, e não como despesa evitável, estarão mais preparadas para atravessar esse novo cenário sem que ele comprometa sua saúde financeira.

Larissa Ferreira Alves
Larissa Ferreira Alves Articulista

Advogada especialista em Direito Empresarial, com atuação em recuperação de crédito, contratos e estruturação jurídica de negócios

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