Recentemente, participei de um programa de inovação na Estônia e na Finlândia. Fui esperando conhecer países digitais. Voltei pensando menos em tecnologia e mais em Estado. Essa foi a primeira grande provocação da imersão: a Estônia não apenas digitalizou serviços públicos, mas redesenhou a relação entre cidadão, governo e dados.
Há uma diferença enorme nisso. Digitalizar um serviço pode significar apenas transformar um formulário em PDF ou colocar uma fila dentro de um aplicativo. Pode ser trocar o balcão físico por um portal confuso, cheio de senhas e departamentos que não conversam entre si. A Estônia fez algo mais profundo. Tratou o governo digital como infraestrutura de país.
Após recuperar sua independência em 1991, a nação báltica tinha um desafio brutal: reconstruir instituições e escapar do legado burocrático soviético. Países maiores e mais ricos talvez tentassem consertar o velho. A Estônia entendeu que não fazia sentido informatizar ruínas. Quando se tem pouco recurso e nenhuma margem para errar, a modernização vira sobrevivência.
A infraestrutura invisível e o princípio da informação única
O segredo estoniano não está em uma tecnologia específica, mas no encadeamento das decisões. Tudo começa pela educação. Investiu-se em alfabetização digital e em escolas conectadas antes do lançamento de serviços mais complexos. Depois veio a identidade digital, com a criação de uma camada única e confiável de autenticação. Por fim, surgiu a interoperabilidade, materializada na X-Road, a espinha dorsal que permite a bases públicas e privadas trocarem dados de forma segura e descentralizada.
Na Estônia, o Estado levou a sério o princípio do “once only”: o poder público não pode pedir novamente uma informação que já possui. Para quem vive no Brasil, acostumado à romaria documental, isso soa como ficção. Por aqui, o cidadão ainda é tratado como o mensageiro dos próprios dados, levando uma certidão de um órgão para provar a outro algo que o próprio Estado já sabe.
Essa visão de vanguarda se estende à soberania nacional. Com o conceito de “data embassy”, a Estônia mantém cópias de dados críticos em servidores diplomáticos fora de seu território. Se o país sofrer uma ameaça física ou geopolítica, o Estado continua funcionando na nuvem. Além disso, o funcionalismo público local estuda design thinking para desenhar a jornada do usuário. O recado é claro: o cidadão pode ser obrigado a se relacionar com o Estado, mas isso não autoriza o governo a ser hostil, confuso ou lento.
A automação com governança e o paradoxo brasileiro
Agora, o debate avança para o “Agentic State” (Estado Agêntico), no qual sistemas de inteligência artificial executam tarefas públicas com autonomia controlada, liberando os humanos para atividades que exigem julgamento estratégico e empatia. Na América Latina, onde a intervenção humana na burocracia muitas vezes gera lentidão ou abre margem para corrupção, a automação com governança é uma urgência. Quanto mais IA, contudo, mais necessários se tornam a transparência, a auditoria e o controle democrático.
Diante disso, seria fácil voltar da Europa com um complexo de vira-lata tecnológico. Mas isso seria injusto e preguiçoso. O Brasil tem ativos digitais impressionantes. Temos o gov.br, o Pix, uma das maiores revoluções de pagamento instantâneo do mundo, e o Open Finance. O Brasil não é um país sem peças. É um país com peças valiosas espalhadas sobre a mesa. Nosso desafio é o encaixe.
Não dá para falar em Estado Agêntico sem resolver a inclusão fundamental. Dados do IBGE indicam que cerca de 10% da população brasileira com 10 anos ou mais sequer utiliza a internet, e o principal motivo é o analfabetismo digital. Se uma parcela relevante da população não atravessa a porta de entrada, o futuro vira privilégio, não serviço público.
A Estônia, com 1,3 milhão de habitantes, opera como um laboratório de alta coerência. O Brasil, de dimensões continentais e desigualdades profundas, joga outro esporte. Aqui, qualquer solução precisa enfrentar a escala, a assimetria institucional e a eterna arte brasileira de transformar exceções em regra.
O próximo salto do governo digital
Mas é justamente por isso que o Brasil também tem o que ensinar. Se a Estônia ensina coerência, interoperabilidade e foco radical no cidadão, o Brasil ensina escala, criatividade sob restrições extremas e a capacidade de fazer com que infraestruturas digitais complexas sejam adotadas por massas gigantescas. O Pix é a prova: quando a tecnologia pública resolve uma dor real com simplicidade, ela deixa de ser um projeto e vira hábito social.
A grande lição comum é que a digitalização de verdade acontece quando a tecnologia desaparece da rotina e o cidadão apenas percebe que a vida ficou mais simples.
O que falta ao Brasil é menos aplicativo e mais costura. Menos portais novos e mais coragem para aposentar fluxos antigos. Menos digitalização da burocracia e mais redesenho do Estado. O próximo salto brasileiro não dependerá de inventar a roda, mas de fazer o que já existe conversar melhor. A próxima fronteira do governo digital não é criar mais ferramentas, mas fazer o Estado funcionar como se lembrasse que o cidadão tem mais o que fazer.