Carreira Jurídica
O mercado jurídico não está saturado, ele exige mais do que um diploma
Ouvir o cliente, explicar riscos e negociar honorários são habilidades que o estudante de Direito pode começar a desenvolver antes de se formar.
Quem está perto de concluir a graduação em Direito provavelmente já ouviu a mesma afirmação inúmeras vezes: o mercado jurídico está saturado. Os números parecem reforçar essa percepção. Segundo levantamento da OAB divulgado em 2023, o Brasil tinha aproximadamente um advogado para cada 164 habitantes. No mesmo período, o número de cursos de Direito havia saltado de 235, em 1995, para 1.896, em 2023. Já um levantamento do Ranking Universitário Folha apontou que nove em cada dez cursos aprovavam menos de 30% dos estudantes no Exame de Ordem.
O cenário revela uma combinação desafiadora: um número crescente de profissionais disputando espaço e uma formação que nem sempre consegue prepará-los para as exigências concretas da profissão.
Mas talvez “saturado” não seja a palavra mais precisa para definir o mercado jurídico brasileiro. Saturação pressupõe que não há mais espaço disponível. O que se observa, na realidade, é um ambiente cada vez mais competitivo, no qual muitos profissionais oferecem serviços semelhantes, utilizam discursos parecidos e encontram dificuldade para comunicar o valor de sua atuação.
Como o cliente escolhe um advogado
Quando dez escritórios de uma mesma cidade se apresentam como especialistas em diversas áreas do Direito, sem demonstrar com clareza suas experiências, seus diferenciais ou os problemas que estão preparados para resolver, a distinção se torna difícil. E, quando o cliente não consegue identificar diferenças relevantes, tende a recorrer aos critérios que estão ao seu alcance: preço, indicação e visibilidade.
Esse é um aspecto pouco discutido com quem está começando na advocacia: o cliente, em regra, não dispõe de conhecimento técnico suficiente para avaliar a qualidade do trabalho jurídico antes de contratar. Ele não sabe, naquele primeiro contato, se a estratégia processual é a mais adequada, se a análise contratual foi suficientemente aprofundada ou se a orientação recebida considera todos os riscos envolvidos. Essa avaliação, muitas vezes, só acontece depois de algum tempo.
Na ausência de critérios técnicos para comparar profissionais, outros sinais passam a influenciar a decisão. A reputação, a clareza na comunicação, a confiança transmitida, a indicação de alguém próximo e até a facilidade de encontrar informações sobre aquele advogado podem pesar na escolha. Em um mercado no qual muitos parecem oferecer a mesma coisa, quem não consegue demonstrar seu valor corre o risco de ser percebido como apenas mais uma opção.
O diploma é o ponto de partida, não o diferencial
Parte dessa dificuldade está relacionada à maneira como muitos estudantes compreendem a própria formação. Durante a graduação, a atenção costuma se concentrar no domínio da legislação, da doutrina, da jurisprudência e na preparação para o Exame de Ordem. São conhecimentos indispensáveis, mas não representam a totalidade das competências necessárias para exercer a advocacia.
O exercício profissional exige também organização, responsabilidade, capacidade de negociação, comunicação e relacionamento interpessoal. São habilidades frequentemente agrupadas sob a expressão soft skills, mas que, na prática, determinam aspectos bastante concretos da relação entre advogado e cliente.
Saber Direito é fundamental. Mas também é necessário saber ouvir uma pessoa que chega ao escritório preocupada, explicar um procedimento sem recorrer a termos incompreensíveis, estabelecer expectativas realistas, negociar honorários com segurança e cumprir os compromissos assumidos.
O problema é que essas situações nem sempre recebem a mesma atenção durante a formação acadêmica. O estudante pode concluir o curso com uma boa capacidade de análise jurídica e, ainda assim, ter pouca experiência em lidar com as responsabilidades cotidianas da profissão.
É nesse intervalo entre o conhecimento acadêmico e a prática profissional que muitos recém-formados encontram suas maiores dificuldades. E é também nesse espaço que a iniciativa individual começa a fazer diferença.
Esperar que o diploma, a aprovação na OAB ou a contratação por um escritório sejam suficientes para iniciar uma trajetória consistente é uma postura que pode custar tempo. A construção profissional começa antes da carteira da Ordem e não depende exclusivamente da primeira oportunidade formal de trabalho.
A diferença está na postura antes mesmo da especialização
Existe uma tendência de atribuir as dificuldades de inserção profissional à quantidade de advogados no país. Embora a concorrência seja real, essa explicação deixa de lado um fator importante: nem todos os profissionais disputam o mercado da mesma maneira.
O recém-formado que aguarda passivamente uma oportunidade está em uma posição diferente daquele que procura experiências práticas, participa de grupos de estudo, desenvolve capacidade de escrita, acompanha as transformações de sua área e constrói relacionamentos profissionais ainda durante a graduação.
Não se trata de afirmar que a postura substitui a formação ou que habilidades comportamentais resolvem todas as dificuldades do mercado. Trata-se de reconhecer que a competência profissional é percebida a partir de um conjunto de fatores. O conhecimento jurídico sustenta o trabalho, mas a maneira como ele é aplicado e entregue também influencia a confiança construída ao longo da relação.
O mercado tende a reconhecer com maior facilidade profissionais que conseguem demonstrar com clareza sua área de atuação, os problemas que estudam e o público com o qual desejam trabalhar. Escolher um campo de interesse, aprofundar conhecimentos e acompanhar as transformações daquele segmento pode ser mais estratégico do que tentar se apresentar, desde o início, como alguém preparado para atuar em todas as áreas.
A comunicação também faz parte desse processo. Produzir conteúdo jurídico informativo, participar de debates, escrever artigos e compartilhar análises são formas de demonstrar conhecimento e desenvolver uma presença profissional. Desde que respeitados os limites éticos da publicidade na advocacia, essas iniciativas podem contribuir para que o profissional seja reconhecido por sua atuação e por sua capacidade de interpretar questões relevantes.
A reputação, nesse sentido, não nasce de uma publicação isolada nem de uma estratégia de exposição. É resultado da coerência entre conhecimento, posicionamento e entrega. E pode começar a ser construída muito antes de o advogado consolidar uma carteira de clientes.
Um mercado competitivo não é um mercado fechado
O mercado jurídico brasileiro continua oferecendo espaço para profissionais qualificados, mas o diploma, isoladamente, já não representa uma vantagem competitiva suficiente. Conhecimento técnico, responsabilidade, relacionamento, comunicação e clareza de atuação compõem um conjunto cada vez mais importante para a construção de uma carreira.
Por isso, talvez a pergunta mais produtiva para quem está concluindo o curso de Direito não seja se o mercado está saturado, mas o que está fazendo para não ser percebido como apenas mais um profissional entre tantos outros.
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