DIREITO INTERNACIONAL
Cresce o número de advogados brasileiros que decidem internacionalizar a carreira
Com a alta na busca por atuar no exterior, advogados brasileiros utilizam vistos de habilidades especiais e o licenciamento estadual para construir carreiras nos EUA.
Nos últimos anos, um número crescente de advogados brasileiros vem tomando uma decisão que, até pouco tempo atrás, parecia reservada a uma pequena elite da profissão: deixar o escritório, a banca ou o cargo público no Brasil para reconstruir a carreira jurídica fora do país. O movimento não é isolado nem passageiro. Ele reflete uma mudança estrutural na forma como a advocacia brasileira enxerga suas próprias fronteiras.
Levantamentos recentes de escritórios especializados em imigração qualificada mostram a dimensão do fenômeno. A Bicalho Consultoria Legal, banca com atuação nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal, registrou mais de três mil brasileiros em busca de orientação especializada apenas entre janeiro e maio de 2026. Os Estados Unidos concentram cerca de 60% dessa procura, e 67% dos atendimentos envolvem famílias inteiras dispostas a recomeçar a vida no exterior: não apenas o profissional isoladamente.
O apetite migratório de advogados encontra respaldo no número crescente profissionais brasileiros que migram para os EUA, especialmente através dos vistos de habilidades especiais, categorias frequentemente usadas por profissionais liberais, entre eles muitos advogados.
Por que os advogados brasileiros olham para fora
Para o advogado Vinícius Bicalho, licenciado no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal, e fundador da Bicalho Legal Consulting P.A. e da Bicalho Consultoria Legal, a decisão de internacionalizar a carreira jurídica raramente nasce de um único motivo. "A instabilidade econômica e política do Brasil continua sendo um fator relevante, mas hoje o principal motor é outro: o profissional quer testar seu próprio valor em um mercado mais competitivo, mais meritocrático e com moeda mais forte", explica.
"Advogar nos Estados Unidos deixou de ser um sonho distante e virou um plano de carreira com etapas concretas. O que mudou foi a clareza sobre o caminho: hoje sabemos exatamente quais vistos funcionam para cada perfil de advogado e como estruturar o licenciamento profissional depois", afirma Vinícius Bicalho.
Esse amadurecimento também aparece no reconhecimento profissional. Bicalho foi incluído na lista "2026 Most Influential Lawyers", publicada pelo The Wall Street Journal, um sinal, segundo ele, de que a atuação de advogados brasileiros nos Estados Unidos vem ganhando peso e visibilidade internacional, e não apenas relevância dentro da própria comunidade migrante.
Os dois pilares da internacionalização: migração e licenciamento
Apesar do crescimento do movimento, a lógica por trás da internacionalização jurídica não mudou desde que a Bicalho começou a mapear esses casos: o processo se apoia em dois pilares distintos e sequenciais. "O primeiro passo é conseguir permissão para morar nos EUA. Os vistos baseados nas habilidades profissionais do advogado permitem que muitos obtenham o Green Card com base na própria trajetória de carreira. Depois vem a etapa de licenciamento para atuar no país", resume Bicalho.
No campo migratório, os advogados brasileiros seguem concentrados em duas categorias de vistos de habilidades especiais:
- EB-2 NIW: indicado para profissionais com carreira sólida na área de atuação. O desafio não é comprovar a elegibilidade, mas obter a dispensa por interesse nacional (National Interest Waiver), demonstrando que o plano profissional do candidato tem mérito substancial e importância nacional para os Estados Unidos.
- EB-1A: voltado a profissionais que se destacam no topo de sua área, com habilidades extraordinárias. É preciso cumprir três de dez critérios exigidos pela imigração americana, comprovando realizações expressivas e reconhecimento internacional.
"Ao longo da nossa trajetória, tivemos aprovações de visto para advogados de Direito Empresarial, Trabalho, Família, Consumidor, Previdenciário, Contratual, Internacional, Tributário e Desportivo, entre outras áreas. Os EUA querem o conhecimento do profissional, não a sua licença brasileira, o importante é demonstrar como esse conhecimento agrega valor ao país", afirma Bicalho.
Licenciamento: regras variam por Estado
Superada a etapa migratória, o segundo desafio é o licenciamento profissional. Cada Estado americano tem suas próprias exigências: alguns pedem mestrado cursado nos EUA, outros exigem graduação em Direito americana, e em alguns basta a aprovação no BAR Exam. Em linhas gerais, a Ordem dos Advogados americana (BAR) reconhece quatro caminhos de atuação:
- Foreign Legal Consultant: atua como consultor das leis do país de origem. Um advogado brasileiro pode, nessa condição, orientar sobre Direito brasileiro em solo americano.
- In House Counsel: gestor jurídico vinculado a uma corporação específica, licença atrelada à atuação naquela empresa empregadora.
- Lawyer: advogado com liberdade plena de atuação, mediante aprovação no BAR Exam, habilitado para processos federais em todo o território americano e estaduais no Estado do exame.
- Paralegal: assistente jurídico que atua sob supervisão de um advogado habilitado, geralmente sem exigência de licença própria.
Um movimento que deve seguir crescendo
Para Bicalho, a tendência de internacionalização da advocacia brasileira tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que mais profissionais compreendem que o caminho, embora exigente, é mais estruturado do que aparenta. "A advocacia nos Estados Unidos continua sendo um mercado altamente competitivo e dinâmico, mas cada vez mais advogados brasileiros estão percebendo que essa competitividade é também um ambiente de oportunidade. Trabalhar nos EUA agrega um valor de carreira que dificilmente se constrói apenas dentro do Brasil", conclui.
Escritórios especializados em imigração qualificada, como a Bicalho, têm acompanhado de perto essa curva de crescimento, oferecendo assessoria dedicada a advogados e outros profissionais liberais que buscam transformar a experiência acumulada no Brasil em uma nova trajetória internacional.
Vinícius Bicalho é advogado internacional, licenciado nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal, com 24 anos de atuação. É fundador da Bicalho Legal Consulting e idealizador do Beyond Borders Legal Career Program, mentoria voltada à internacionalização de carreira de advogados estabelecidos.
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