Direito Eleitoral
Entre likes e urnas: O político viral e o engajamento das eleições nas redes sociais
Com a ascensão dos políticos TikTokers, o debate eleitoral migra da discussão de projetos de governo para a disputa por engajamento e métricas de algoritmos nas redes sociais.
Houve um tempo em que o político precisava convencer o eleitor. Hoje, basta convencer o algoritmo. A campanha eleitoral, outrora, tinha cheiro de papel: santinhos espalhados pelas calçadas, comícios em praças públicas, discursos longos e promessas que ecoavam nos alto-falantes. Agora, a campanha cabe na palma da mão, dura trinta segundos e precisa prender a atenção antes que o dedo deslize para o próximo vídeo. A política descobriu o algoritmo, e o algoritmo foi ao encontro da política.
O que se observa nas últimas eleições é que a campanha eleitoral deixou de ser uma disputa de ideias para se transformar numa competição por engajamento. O palanque foi substituído pelo LED das telas com vídeos e cortes instantâneos. Enfim, o pleito eleitoral entrou na era dos "stories" e das "lives", e foi absorto por esta nova tendência de se fazer política e eleição no nosso país.
O discurso e a retórica cederam espaço ao conteúdo vertical de impacto momentâneo e o programa de governo perdeu para a coreografia da semana. Se a democracia já foi chamada de governo do povo, agora parece viver uma fase experimental: a do governo dos seguidores. Foi no embalo dessa toada que assim nasceram os "políticos virais" (aqueles candidatos, parlamentares ou governantes adeptos das redes sociais, conhecidos por alguns como influenciadores digitais, ou políticos TikTokers).
Esse novo personagem do espectro democrático dança, faz piadas, participa de desafios, grava vídeos descontraídos e transforma a rotina institucional em entretenimento. Ele não precisa conhecer profundamente sobre a Constituição, orçamento público, funcionamento dos Poderes e das Instituições; tampouco conhece sobre os desafios da Administração Pública. Ao revés, entende muito bem, e com diligência contumaz, sobre os horários de maior audiência, filtros mais populares e a "música chiclete" do momento. A estratégia não é acidental: ela responde à lógica de uma sociedade em que a visibilidade se tornou um ativo eleitoral tão importante quanto requisitos como experiência, consistência das propostas e capacidade de gestão.
Esse espécime de político, que aqui chamamos de "político viral", não se preocupa em estudar os indicadores econômicos ou aprimoramento das políticas sociais de bem-estar. Seu objetivo é, aparentemente, mais simples. Porém, apenas à primeira vista, pois apesar de parecer uma ideia singular ou modesta, carrega uma intenção fértil e de certo modo inquietante. Ele aprende a prender a atenção nos cinco primeiros segundos do vídeo por meio da distração, supostamente, "despretensiosa", mas impregnada de conteúdo e mensagens que causam certa excitação popular. O "político viral" tem plena consciência de que, nas redes sociais, verdade e distração competem no espaço digital (e a distração, quase sempre, vence!).
Num ambiente onde a imagem importa mais do que o conteúdo, e a popularidade frequentemente se confunde com credibilidade, nunca foi tão fácil parecer preparado sem necessariamente estar. Basta um roteiro bem escrito, edição dinâmica e uma sequência de comentários com cortes favoráveis. A competência pode esperar; a viralização, não.
O espetáculo da política e a compressão do debate público
O resultado é uma campanha eleitoral marcada pela instantaneidade. Projetos complexos perdem espaço para frases de efeito. Questões estruturais são comprimidas em vídeos curtos, incapazes de comportar a profundidade que temas como saúde, educação ou segurança pública exigem. A política, pouco a pouco, adapta sua linguagem à velocidade da plataforma, e não à complexidade da realidade.
Os debates, antes arenas de confronto de projetos, transformaram-se em laboratórios de conteúdos para as redes sociais. Já não importa quem apresentou a melhor proposta, mas quem produziu o "meme" mais compartilhado ou a legenda mais chamativa. A política descobriu que uma frase espirituosa rende mais votos do que uma explicação séria.
O número de seguidores passa a ser interpretado como capital político e o simulacro da influência digital passa a ser critério de seleção dos candidatos pelos eleitores. Entramos num tempo em que a quantidade de visualizações substituiu o currículo ou a experiência. A fama antecede a competência, como se administrar um município, estado ou exercer atividade legiferante fosse semelhante à administração de um perfil nas redes sociais.
Mas a bem da verdade, nunca os políticos estiveram tão próximos dos cidadãos, mas talvez nunca tenham estado tão distantes do debate público qualificado. Porém, seria injusto atribuir à classe política toda esta responsabilidade. Eles apenas compreenderam as regras de uma nova dinâmica fomentada por uma sociedade cada vez mais conectada, e por plataformas desenhadas para capturar e reter atenção. Afinal, nenhum candidato deseja falar para uma plateia vazia.
Também o eleitor desempenha seu papel nesse espetáculo quando compartilha o vídeo viral, ou quando comenta a provocação mais recente e recompensa o entretenimento com engajamento. Pode até reclamar da superficialidade da política, mas premia justamente quem a transforma em recreação. Exige seriedade dos governantes, porém dedica mais atenção ao vídeo engraçado do que à leitura de um plano de governo. O eleitor até pode se indignar com a pobreza do debate público, mas alimenta diariamente o algoritmo que recompensa exatamente essa pobreza.
O desafio da governabilidade pós-algoritmo
Mas não se pretende aqui condenar aqueles que utilizam as novas tecnologias. O incômodo é quando o espaço político, fruto da dialética necessária à democracia e do compromisso republicano, passa a ser substituído pela rede social. Administrar exige planejamento, negociação, conhecimento técnico e responsabilidade. Viralizar exige apenas criatividade suficiente para sobreviver ao próximo deslizar de dedo na tela.
A democracia não morre quando um candidato dança ou faz firulas diante da câmera. Ela começa a adoecer quando o eleitor acredita que a distração é suficiente para escolher quem governará hospitais, escolas, estradas e o futuro de uma geração.
No dia da eleição, o algoritmo não comparece à seção eleitoral. Tampouco assume ministérios, administra municípios ou responde pelos erros de governo. Quem faz isso é o candidato escolhido pelo eleitor.
É preciso lembrar de uma verdade inconveniente: a de que seguidores não são sinônimo de liderança; visualizações não equivalem a competência; e milhões de curtidas jamais substituirão um único projeto de governo consistente. A urna não deveria premiar quem melhor domina o aplicativo, mas quem demonstra capacidade para governar a República. O problema é que, na era da política performática, há candidatos que sabem tudo sobre tendências digitais, mas muito pouco sobre o país que pretendem administrar.
E quando o espetáculo termina, as luzes do LED se apagam e os filtros desaparecem, quem continua pagando a conta é o cidadão. Afinal, governos não são avaliados pelo número de visualizações, mas pelas consequências de suas decisões. Pena que essa métrica ainda não viraliza!
Doutor em Direito Privado (PUC/MG). Professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e do Programa de Mestrado e Doutorado em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos UFT/ESMAT. Palestrante e autor de livros e artigos jurídicos. Advogado.
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