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Reforma tributária, contratos e creator economy: o que influenciadores e infoprodutores precisam revisar agora

Reforma tributária impacta diretamente a creator economy. Influenciadores, infoprodutores e agências precisam revisar contratos, cláusulas de equilíbrio econômico e estrutura societária antes da transição.

Por Kamila Carrer

Advogada de Direito Digital e Direito da Influência | Atua com assessoria e consultoria jurídica para pessoas e negócios que operam em ambiente digital

A reforma tributária brasileira representa uma das maiores mudanças no sistema de  tributação sobre o consumo das últimas décadas. Embora grande parte dos debates tenha  se concentrado na indústria, comércio e prestação de serviços tradicionais, a chamada  creator economy também será diretamente impactada pelas novas regras. 

Influenciadores digitais, infoprodutores, afiliados, agências, lançadores e criadores de  conteúdo costumam operar por meio de estruturas empresariais que contemplam a  realização de diversas atividades simultaneamente: publicidade, licenciamento de  imagem, monetização de conteúdo, cursos online, além de outras fontes de receita.  

Com a implementação do novo modelo tributário, essas atividades poderão enfrentar  mudanças relevantes na forma de tributação, no aproveitamento de créditos e na  estruturação contratual. 

Além dos impactos fiscais, existe uma questão que ainda recebe pouca atenção no  mercado digital: contratos assinados antes da reforma tributária podem deixar de refletir  a realidade econômica das operações após a entrada em vigor das novas regras. 

Neste artigo, você entenderá como a reforma tributária pode afetar influenciadores  digitais e infoprodutores, quais cuidados devem ser adotados na revisão de contratos e  por que o planejamento jurídico e tributário passa a ser ainda mais estratégico para a creator economy. 

A nova sistemática tributária 

Com a promulgação da Emenda Constitucional n. 132/2023, juntamente com a Lei  Complementar n. 214/2025, acentuou-se a promessa de simplificação do sistema  tributário, uniformização da arrecadação e redução dos conflitos existentes entre ISS e  ICMS. 

Isso porque, a criação do IBS e da CBS marca uma mudança significativa em relação ao  antigo modelo tributário – historicamente dividido entre diferentes tributos incidentes – para uma lógica do sistema de valor agregado em cada etapa da cadeia de produção e  comercialização de bens e serviços. 

Na prática, o IVA Dual divide a cobrança em dois tributos distintos sobre o valor  agregado para manter a autonomia entre os entes federativos: a CBS (federal) e o IBS (subnacional), além do Imposto Seletivo, em que: 

• CBS substitui: PIS, Cofins, IOF-seguros e IPI 

• IBS substitui: ICMS e ISS 

Assim, a substituição progressiva dos tributos não impacta apenas a carga tributária,  mas também a lógica estratégica e contratual das operações. 

Reforma tributária e creator economy: como o mercado digital será impactado? 

A chamada creator economy envolve influenciadores, infoprodutores, afiliados,  agências, social medias, plataformas e diversos profissionais que monetizam conteúdo  digital. 

Esse mercado cresceu rapidamente nos últimos anos, muitas vezes utilizando estruturas  tributárias mais simplificadas, especialmente pessoa jurídica no Simples Nacional e  operações híbridas entre publicidade, uso de imagem e venda de infoprodutos. 

Com a reforma tributária, a tendência é de mudança na lógica de tributação sobre  consumo e serviços, o que pode impactar diretamente a margem operacional,  precificação, distribuição de receitas, creditamentos, retenções tributárias e modelos  societários. 

Além disso, muitos profissionais da creator economy ainda não perceberam uma  questão igualmente preocupante: contratos assinados antes da reforma podem deixar de  ser financeiramente sustentáveis após as mudanças no sistema de tributação. 

Isso porque boa parte do mercado digital opera com contratos de longo prazo,  percentuais fechados, remuneração baseada em margem, divisão de receitas e acordos  de publicidade contínua. 

É justamente nesse ponto que contratos e planejamento jurídico passam a ter papel  estratégico, pois, na prática, muitos creators podem descobrir que um contrato lucrativo  hoje se torna significativamente menos vantajoso após a entrada em vigor das novas  regras. 

Tributação de creators na reforma tributária 

Embora ainda exista período de transição e regulamentações pendentes, o mercado  digital já acompanha discussões relevantes sobre a incidência de IBS e CBS,  creditamento tributário, mudanças na tributação sobre prestação de serviços e impacto  sobre pessoas jurídicas do setor digital. 

Influenciadores e infoprodutores frequentemente atuam em múltiplas frentes, com  trabalhos envolvendo publicidade, uso de imagem, monetização de conteúdo, cursos  online, afiliação, participação societária em marcas próprias, além de outras frentes. 

Tal complexidade gera uma dificuldade prática importante: definir corretamente a  natureza jurídica e tributária de cada receita. 

Uma campanha publicitária, por exemplo, pode envolver simultaneamente cessão de  imagem, prestação de serviço e produção intelectual e exploração comercial de  conteúdo. 

Quanto mais complexa a operação, maior tende a ser a necessidade de revisão  contratual.

É importante notar que, embora a reforma tributária venha com a proposta de solucionar  a fragmentação arrecadatória, isso não significa necessariamente que ela acompanhará  as mudanças e complexidades da economia digital de forma plena. 

Reforma tributária e o impacto nos contratos 

Um dos pontos menos discutidos da reforma tributária é justamente o impacto nos  contratos já existentes. 

Muitos contratos do mercado digital foram assinados considerando determinada carga  tributária, margem específica e modelo fiscal vigente. 

Se a tributação aumenta de forma relevante, pode ocorrer desequilíbrio econômico do  contrato. 

E, com efeito, isso pode impactar creators vinculados a agências, coprodutores,  afiliados, empresas de lançamento, produtores de cursos online e influenciadores com  contratos de exclusividade. 

Imagine um creator que fechou contrato de publicidade com valor fixo anual considerando determinado regime tributário. Se o custo tributário aumenta  significativamente, a rentabilidade real da operação pode cair drasticamente,  especialmente se o contrato não especificar se os valores acordados são líquidos e livres  de tributos, ou brutos. 

E é justamente aqui que surge uma discussão importante: a possibilidade de revisão  contratual. 

É possível revisar contratos por causa da reforma tributária? 

Dependendo do caso, sim. 

O ordenamento jurídico brasileiro admite revisão contratual em situações excepcionais  que gerem desequilíbrio relevante entre as partes. 

Embora cada contrato exija análise individualizada, aumentos expressivos de carga  tributária podem gerar discussões relacionadas ao equilíbrio econômico do contrato, à  distribuição dos riscos, à onerosidade excessiva e à necessidade de renegociação. 

Isso tende a ganhar ainda mais relevância em contratos de longa duração, com  remuneração fixa, com divisão percentual de receitas e estruturados antes da definição  das novas regras tributárias. 

Não significa que toda mudança tributária permitirá revisão automática. Mas ignorar  esse impacto pode representar prejuízo financeiro significativo. 

Novos contratos precisam de cláusulas de proteção tributária 

Mais importante do que discutir contratos antigos é evitar conflitos futuros.

A tendência do mercado é que contratos da creator economy passem a incluir cláusulas  específicas relacionadas ao impacto da reforma tributária, ao reequilíbrio econômico quando pertinente, à revisão de remuneração e renegociação em caso de alteração  legislativa relevante. 

Isso já acontece em setores mais maduros da economia e tende a se tornar prática  comum no mercado digital. 

Profissionais da economia criativa que assinam contratos sem prever esses cenários  podem acabar assumindo riscos tributários desproporcionais sem perceber. 

O problema da informalidade no mercado digital 

Outro ponto crítico é que grande parte da creator economy ainda opera de forma  informal e/ou contratualmente frágil. 

É comum encontrar contratos genéricos, ausência de cláusulas tributárias, divisão de  receitas mal definida e operações sem planejamento fiscal adequado. 

Enquanto o mercado cresce, isso pode passar despercebido. Mas em cenários de  aumento de carga tributária, as fragilidades podem se tornar mais evidentes e os conflitos tendem a surgir rapidamente. 

Deveras, a reforma tributária tende a acelerar a profissionalização jurídica e fiscal do  setor. 

O que influenciadores e infoprodutores deveriam fazer agora?

O momento exige planejamento. 

Creators, agências e empresas digitais deveriam: 

  • revisar contratos vigentes; 
  • mapear impacto tributário potencial; 
  • analisar margem operacional; 
  • estruturar cláusulas de proteção; 
  • revisar modelos societários; 
  • organizar operações fiscais para melhor aproveitamento dos créditos gerados.

Quem se antecipa tende a sofrer menos impacto financeiro e operacional.

Perguntas frequentes sobre reforma tributária e creator Economy 

1) A reforma tributária aumenta os impostos para influenciadores digitais?

Ainda não é possível afirmar de forma genérica. Os impactos dependerão da estrutura  empresarial adotada, da natureza das receitas e da regulamentação aplicável. 

2) Influenciadores digitais poderão aproveitar créditos tributários?

O novo sistema amplia a lógica de creditamento, mas a efetiva utilização dos créditos  dependerá da atividade exercida e do correto registro das despesas relacionadas à  operação.

3) Contratos antigos precisam ser alterados? 

Nem sempre. Contudo, contratos de longa duração ou com margens reduzidas merecem  revisão preventiva para identificar potenciais riscos decorrentes da reforma. 

A importância da assessoria jurídica especializada 

A reforma tributária não impacta apenas a contabilidade de um negócio. O impacto  envolve também contratos, margem, operação e estratégia comercial. 

No mercado digital, muitos profissionais focam apenas em faturamento e deixam a  estrutura jurídica em segundo plano. O problema é que contratos mal estruturados e a  falta de planejamento tributário adequado podem transformar crescimento em passivo. 

Uma assessoria jurídica especializada permite identificar riscos, revisar cláusulas  estratégicas, estruturar proteção contratual e reduzir vulnerabilidades futuras. 

A creator Economy está amadurecendo, de forma que a segurança jurídica deixou de ser  diferencial e está se tornando necessidade operacional. 

Conclusão 

A reforma tributária tende a alterar significativamente a dinâmica financeira da  economia criativa brasileira, que é um setor que não se enquadra nas categorias  profissionais tradicionais. 

Influenciadores, infoprodutores e creators que ignorarem o impacto contratual e  tributário dessas mudanças podem enfrentar redução de margem, conflitos comerciais e  aumento de passivos. 

Nesse contexto, criadores com estrutura empresarial organizada tendem a ter melhores  condições de aproveitar os mecanismos de creditamento previstos pela reforma  tributária, embora a efetiva extensão desses benefícios ainda dependa da  regulamentação e da aplicação prática do novo sistema. 

Já aqueles que desenvolvem suas atividades de maneira informal ou sem adequada  escrituração de custos e despesas podem enfrentar limitações relevantes na utilização  desses créditos, reduzindo os potenciais benefícios decorrentes da nova sistemática. 

Mais do que discutir aumento de imposto, o momento exige planejamento, revisão  contratual e profissionalização da operação digital. 

A creator economy já não pode mais ser tratada como um fenômeno informal da  internet. À medida que o setor ganha relevância econômica, cresce também a  importância de estruturação jurídica e tributária. Nesse novo cenário, quem se adapta  primeiro tende não apenas a reduzir riscos, mas a transformar conformidade legal em  vantagem estratégica.


Kamila Carrer

Advogada de Direito Digital e Direito da Influência | Atua com assessoria e consultoria jurídica para pessoas e negócios que operam em ambiente digital

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