Direito Empresarial
Direito Societário

Sair de uma sociedade pode ser mais difícil do que entrar. E o problema começa no contrato social.

Para exercer a retirada de uma sociedade, o sócio precisa notificar os demais com prova de ciência inequívoca. Se a comunicação entre os sócios já está rompida, isso pode ser inviável. Uma cláusula simples no contrato social resolve o problema antes de ele existir.

Por Davi de Paula

Advogado Societário

Na hora de constituir uma sociedade, o clima é de otimismo. Os sócios estão alinhados, os planos são promissores e o contrato social é assinado, muitas vezes, em um único dia, sem leitura detalhada, sem reflexão sobre cenários futuros. É compreensível. Ninguém abre uma empresa pensando no dia em que vai querer sair.

Mas o dia chega.

E quando chega, a realidade costuma ser outra: conflito societário, divergência de visão, desgaste na relação. O sócio que quer sair frequentemente já não tem uma comunicação fácil com os demais. E é justamente nesse momento que o contrato social, aquele documento que ninguém leu com atenção, se torna o centro de tudo.

O problema prático da retirada

Para exercer o direito de retirada de uma sociedade limitada, o sócio precisa notificar os demais de forma inequívoca. A lei exige que a vontade de se retirar seja comunicada com prova de ciência dos demais sócios. Na prática, isso significa enviar uma notificação formal, por carta com aviso de recebimento, por exemplo, e demonstrar que todos os sócios foram efetivamente cientificados.

Parece simples. Não é.

Se a relação entre os sócios está rompida, a comunicação pode ser dificultada de forma proposital ou involuntária. O sócio mudou de endereço e não atualizou. Não responde e-mails. Não atende ligações. Em casos mais extremos, não é sequer localizado. E sem a comprovação da ciência inequívoca, o exercício da retirada pode ser contestado.

Resultado: o sócio que quer sair não consegue sair. Fica preso a uma sociedade que não quer mais integrar, assumindo riscos, obrigações e passivos que continuam correndo enquanto a situação não se resolve. O prejuízo não é só financeiro. É pessoal e familiar.

A solução é simples. Mas precisa estar no contrato.

Uma cláusula de comunicação bem redigida no contrato social resolve esse problema antes de ele existir. Basta prever:

1. Meios de comunicação oficiais. Definir que as comunicações entre os sócios serão feitas por endereço postal, e-mail ou aplicativo de mensagens, conforme indicado por cada sócio no ato da constituição ou em aditivo.

2. Dever de atualização. Estabelecer que é responsabilidade de cada sócio manter seus dados de contato atualizados perante a sociedade, sob pena de validade das comunicações enviadas para os meios originalmente informados.

3. Presunção de recebimento. Prever que qualquer comunicação enviada para os meios indicados será considerada recebida e válida, independentemente de confirmação expressa, após determinado prazo (48 horas, por exemplo).

Com essas três previsões, o sócio que quiser exercer a retirada terá um caminho claro e juridicamente sustentável para notificar os demais, sem depender da boa vontade de quem já não quer colaborar.

O que isso ensina sobre planejamento societário

O contrato social não é uma formalidade. É o documento que vai regular a relação entre os sócios nos momentos mais difíceis, não nos mais fáceis. E os momentos mais difíceis são, quase sempre, os de saída: retirada, exclusão, dissolução, falecimento.

Uma questão tão simples quanto definir como os sócios se comunicam pode, se ignorada, atrapalhar a vida de uma pessoa por anos. Pode travar a apuração de haveres, prolongar disputas judiciais e manter alguém vinculado a obrigações que já deveria ter deixado para trás.

O planejamento societário sério começa no primeiro dia. E é no primeiro dia que o contrato social precisa prever o último.

Davi de Paula

Advogado Societário

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