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Depois do caso de prompt injection no TRT-8, o que muda na rotina do advogado que usa IA

A multa de R$ 84.250 aplicada pela Justiça do Trabalho de Parauapebas levou ao grande público uma discussão que já circulava entre pesquisadores e magistrados. Em entrevista à Lawletter, Renato Barufi aponta três cautelas que tendem a entrar no cotidiano de quem trabalha com inteligência artificial.

Créditos da imagem: Magnific

A decisão do juiz Luiz Carlos de Araújo Santos Júnior, da 3ª Vara do Trabalho de Parauapebas, no Pará, aplicou multa de R$ 84.250 a duas advogadas que inseriram um comando oculto em fonte branca sobre fundo branco na petição inicial de uma reclamação trabalhista, técnica conhecida como prompt injection. A instrução pedia que a inteligência artificial elaborasse uma contestação superficial e deixasse de impugnar documentos. A tentativa foi captada pelo Galileu, IA generativa em uso na Justiça do Trabalho.

A repercussão veio rápido, mas a discussão sobre prompt injection no Direito não é nova. Pesquisadores que trabalham com IA aplicada ao Judiciário vinham alertando para o problema desde o fim de 2024, em produção acadêmica que circulava sobretudo nos Estados Unidos e também entre juristas brasileiros. Para entender o que a decisão sinaliza para o cotidiano da advocacia, a Lawletter ouviu Renato Barufi, advogado trabalhista e professor.

Renato afirma que sua primeira reação ao caso foi de surpresa em duas esferas. A conduta das advogadas o incomodou, mas o que mais chamou sua atenção foi a percepção, ao acompanhar a repercussão do caso, de que parte expressiva da comunidade jurídica desconhecia a própria existência da técnica.

Foi um susto de que a maioria das pessoas que utilizam o Poder Judiciário, nós advogados, membros do Ministério Público, ainda não sabia dessa problemática. Hoje praticamente todo mundo usa inteligência artificial, mas muita gente não conhece os riscos.

Renato Barufi Renato Barufi · professor e advogado trabalhista

Entre os trabalhos que vinham antecipando o tema, Renato destaca o do professor Fabrício Lima, juiz do TRT-3, em coautoria com o professor Ney Maranhão, juiz do TRT-8. O artigo “O Cavalo de Troia Algorítmico: Prompt Injection como Afronta à Lealdade Processual”, publicado na Revista Magister de Direito do Trabalho em novembro de 2025, descreve a injeção de prompt como técnica que se aproveita da própria capacidade de interpretação de linguagem natural dos modelos, incapazes de distinguir entre o texto que devem processar e as instruções inseridas para subvertê-los.

A entrevista com Renato organiza três cuidados que tendem a entrar na rotina de quem usa IA na advocacia. O mais simples deles é a revisão integral do que a ferramenta produz, sem pular etapas.

Quando há comando oculto na peça da parte contrária e a IA do escritório é usada para resumir o processo ou auxiliar na manifestação, a tentativa de manipulação pode se refletir no resultado entregue. Renato afirma que a revisão atenta resolve o problema, ainda que com algum custo.

A partir do momento em que você revisa tudo o que a IA faz, não vai ter prejuízo nenhum. O único prejuízo é que ela não vai dar a resposta que você quer, e aí você volta a trabalhar como em 2020, 2021, fazendo as coisas à mão. Na pior das hipóteses, perda de produtividade.

Renato Barufi Renato Barufi · professor e advogado trabalhista

A postura oposta é a do advogado que “pega o que a IA fez, cospe e protocola no processo”, como descreve Renato. Nesse caso, a responsabilidade pela peça continua sendo de quem assina.

Maranhão e Lima desenvolvem esse alerta no plano teórico. Os autores chamam atenção para o que descrevem como viés de aparente veracidade informacional, fenômeno em que a qualidade formal do texto gerado pela IA induz no profissional uma confiança imerecida. Diante de uma peça com aparência sólida, a vigilância crítica pode ceder, e o material manipulado entra no processo como se tivesse passado por análise imparcial.

A segunda cautela apontada por Renato envolve o escopo da revisão. A injeção de prompt pode estar em qualquer documento processado por modelos generativos, não apenas na petição inicial, e essa é a parte que ele considera menos óbvia para quem ainda está se familiarizando com o tema.

Em processos com grande volume documental, a verificação esbarra em um obstáculo técnico. Nem toda ferramenta lida bem com muitas páginas, e a análise pode ficar superficial conforme o material cresce, o que aumenta a chance de um comando malicioso passar despercebido. Renato recomenda o uso de ferramentas com janela de contexto maior nessas situações, e cita o Notebook LM como alternativa gratuita que tem funcionado em seus testes pessoais para análise de processos inteiros.

Créditos da imagem: Divulgação/Google

O Notebook LM é uma ferramenta gratuita do Google, baseada nos modelos Gemini, voltada à análise de documentos carregados pelo usuário. Diferente de assistentes generalistas, ele trabalha apenas com as fontes fornecidas no caderno de trabalho, como PDFs, transcrições, áudios, vídeos e páginas web. A janela de contexto atual chega a um milhão de tokens, o que permite carregar petições, contestações, anexos e laudos de um mesmo processo em uma só conversa e fazer perguntas cruzadas sobre o conteúdo.

Segundo Renato, as ferramentas mais conhecidas no mercado têm conseguido identificar instruções ocultas em texto branco sobre fundo branco ou em fonte de tamanho zero quando são provocadas para isso. A capacidade depende, porém, da forma como o material é submetido à análise e do volume processado.

A terceira cautela apontada por Renato é processual. Quando o advogado identifica, em peça ou documento da parte contrária, uma tentativa de manipulação dirigida à IA, a resposta adequada passa pelos autos, com pedido de apuração da conduta e aplicação das medidas cabíveis.

A leitura de Renato é a de que a IA muda a forma da manobra, mas não muda a lógica do processo. Se uma parte insere um comando escondido para interferir na leitura de uma ferramenta usada no caso, o problema não fica no campo da curiosidade tecnológica. Ele entra na discussão sobre lealdade processual e boa-fé, e alcança a integridade dos atos praticados nos autos.

Esse caminho já vinha sendo discutido por Ney Maranhão e Fabrício Lima no artigo publicado na Revista Magister. Os autores tratam o prompt injection como uma possível afronta à lealdade processual e apontam que a resposta jurídica pode variar conforme a gravidade da conduta, o objetivo do comando e seus efeitos no processo. Em situações mais graves, a discussão pode sair do plano processual e alcançar também a esfera penal.

A decisão de Parauapebas é a primeira a aplicar parte desse raciocínio a um caso concreto na Justiça do Trabalho, e por isso Renato a trata como histórica.

A decisão de Parauapebas entra no repertório de quem usa IA na advocacia não apenas pela multa, mas pelo tipo de risco que ela revelou. A ferramenta está no escritório, no tribunal, na análise de documentos e na elaboração de minutas, e o advogado que trabalha nesse ambiente precisa saber que a peça processual passou a ser lida também por sistemas automatizados.

O caso também expõe uma zona incômoda da discussão. A mesma técnica que apareceu como conduta punida despertou curiosidade nas redes, e parte da repercussão se voltou para o método em si, não para a sanção. Renato vê nisso o ponto mais sensível: se comandos ocultos começarem a circular como atalho de atuação, o problema deixa de estar restrito a um processo no Pará.

A reação, para ele, precisa vir antes que a prática ganhe método. Apurar o caso concreto é o passo imediato; o resto, da OAB à rotina dos escritórios, vem depois. Usar IA no processo não tira do advogado a responsabilidade pelo que assina, só acrescenta uma camada de cuidado sobre o que ele aceita como pronto.


Cibelle Ferreira | Redação Lawletter

Fontes:

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