Direito do Trabalho
Direito Empresarial
Direito Tributário

O fim da escala 6×1: estamos discutindo o problema certo?

O debate sobre o fim da escala 6x1 tem sido conduzido como disputa binária entre trabalhadores e empregadores, mas a pergunta estrutural permanece intocada: por que o Brasil é um dos países mais caros do mundo para contratar formalmente, sem oferecer em troca serviços públicos compatíveis?

Por Larissa Ferreira Alves

Advogada especialista em Direito Empresarial, com atuação em recuperação de crédito, contratos e estruturação jurídica de negócios

Nas últimas semanas, a proposta de extinção da escala de trabalho 6×1 retornou ao centro do debate nacional. Nas redes sociais, nos meios de comunicação e até nos ambientes corporativos, o tema tem sido tratado como uma disputa binária entre empregados e empregadores, como se estivessem em lados opostos de uma batalha.

Mas será que essa é realmente a discussão que precisamos fazer?

É evidente que todo trabalhador deseja mais tempo para sua família, para o lazer, para os estudos e para o descanso. Da mesma forma, é natural que as empresas busquem produtividade, competitividade e sustentabilidade financeira para manter suas operações e gerar empregos. Não há nada de inerentemente incompatível nessa dinâmica.

O problema começa quando se cria a narrativa de que um lado só consegue avançar às custas do outro. Empregados e empregadores não são inimigos; são partes que se complementam. Não existe empresa sem pessoas, e não existem empregos sem empresas saudáveis economicamente.

Quando o debate se limita à pergunta “quem está certo?”, deixamos de discutir uma questão muito mais importante: por que o Brasil continua sendo um dos países mais caros do mundo para contratar formalmente?

Enquanto a sociedade discute incessantemente a jornada de trabalho, pouco se fala sobre a pesada carga tributária incidente sobre a folha de pagamento, os encargos trabalhistas exorbitantes, a burocracia excessiva e os custos indiretos que encarecem drasticamente a contratação formal. O resultado é conhecido: menos competitividade, menos investimentos e, consequentemente, menos oportunidades de emprego.

Curiosamente, aqueles que mais defendem a melhoria das condições de trabalho raramente direcionam a mesma intensidade de cobrança para a eficiência do Estado. O trabalhador paga impostos elevados. O empregador paga encargos elevados. E ambos continuam enfrentando problemas em áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura, que deveriam ser garantidas pelo mesmo Estado.

Não se trata de afirmar que a escala 6×1 é ideal ou que não deva ser revista. Toda evolução das relações de trabalho é legítima e necessária. O que merece reflexão, contudo, é a forma como o debate está sendo conduzido.

Se a redução da jornada vier desacompanhada de medidas que reduzam os custos de contratação e aumentem a produtividade da economia, o risco é transferir para empresas e consumidores uma conta que deveria ser compartilhada por toda a estrutura econômica do país.

A verdadeira pergunta talvez não seja se o trabalhador deve trabalhar menos dias ou se o empresário deve contratar mais pessoas. A pergunta correta é: por que continuamos aceitando um modelo em que quem produz, emprega e trabalha carrega uma das maiores cargas de custos do mundo sem receber, em contrapartida, serviços públicos compatíveis?

Enquanto essa discussão não entrar na pauta principal, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro: trabalhadores e empregadores sendo artificialmente colocados em lados opostos, enquanto os problemas estruturais permanecem intocados, corroendo a capacidade de crescimento de todos.

Talvez o verdadeiro vilão dessa história não seja quem emprega nem quem trabalha. Talvez seja um sistema que insiste em fazê-los acreditar que são adversários, quando, na realidade, dependem crucialmente um do outro para prosperar e impulsionar o desenvolvimento nacional.


Larissa Ferreira Alves

Larissa Ferreira Alves

Advogada especialista em Direito Empresarial, com atuação em recuperação de crédito, contratos e estruturação jurídica de negócios

Quer escrever para a Lawletter?

Tem uma opinião jurídica, uma análise crítica ou uma reflexão relevante?
Sua análise pode virar coluna na Lawletter

As contribuições passam por curadoria editorial antes da publicação.

plugins premium WordPress

Não perca nenhuma notícia jurídica!

Receba as principais análises e atualizações do direito brasileiro direto no seu e-mail.