Nas últimas semanas, a proposta de extinção da escala de trabalho 6×1 retornou ao centro do debate nacional. Nas redes sociais, nos meios de comunicação e até nos ambientes corporativos, o tema tem sido tratado como uma disputa binária entre empregados e empregadores, como se estivessem em lados opostos de uma batalha.
Mas será que essa é realmente a discussão que precisamos fazer?
É evidente que todo trabalhador deseja mais tempo para sua família, para o lazer, para os estudos e para o descanso. Da mesma forma, é natural que as empresas busquem produtividade, competitividade e sustentabilidade financeira para manter suas operações e gerar empregos. Não há nada de inerentemente incompatível nessa dinâmica.
O problema começa quando se cria a narrativa de que um lado só consegue avançar às custas do outro. Empregados e empregadores não são inimigos; são partes que se complementam. Não existe empresa sem pessoas, e não existem empregos sem empresas saudáveis economicamente.
Quando o debate se limita à pergunta “quem está certo?”, deixamos de discutir uma questão muito mais importante: por que o Brasil continua sendo um dos países mais caros do mundo para contratar formalmente?
Enquanto a sociedade discute incessantemente a jornada de trabalho, pouco se fala sobre a pesada carga tributária incidente sobre a folha de pagamento, os encargos trabalhistas exorbitantes, a burocracia excessiva e os custos indiretos que encarecem drasticamente a contratação formal. O resultado é conhecido: menos competitividade, menos investimentos e, consequentemente, menos oportunidades de emprego.
Curiosamente, aqueles que mais defendem a melhoria das condições de trabalho raramente direcionam a mesma intensidade de cobrança para a eficiência do Estado. O trabalhador paga impostos elevados. O empregador paga encargos elevados. E ambos continuam enfrentando problemas em áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura, que deveriam ser garantidas pelo mesmo Estado.
Não se trata de afirmar que a escala 6×1 é ideal ou que não deva ser revista. Toda evolução das relações de trabalho é legítima e necessária. O que merece reflexão, contudo, é a forma como o debate está sendo conduzido.
Se a redução da jornada vier desacompanhada de medidas que reduzam os custos de contratação e aumentem a produtividade da economia, o risco é transferir para empresas e consumidores uma conta que deveria ser compartilhada por toda a estrutura econômica do país.
A verdadeira pergunta talvez não seja se o trabalhador deve trabalhar menos dias ou se o empresário deve contratar mais pessoas. A pergunta correta é: por que continuamos aceitando um modelo em que quem produz, emprega e trabalha carrega uma das maiores cargas de custos do mundo sem receber, em contrapartida, serviços públicos compatíveis?
Enquanto essa discussão não entrar na pauta principal, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro: trabalhadores e empregadores sendo artificialmente colocados em lados opostos, enquanto os problemas estruturais permanecem intocados, corroendo a capacidade de crescimento de todos.
Talvez o verdadeiro vilão dessa história não seja quem emprega nem quem trabalha. Talvez seja um sistema que insiste em fazê-los acreditar que são adversários, quando, na realidade, dependem crucialmente um do outro para prosperar e impulsionar o desenvolvimento nacional.
Larissa Ferreira Alves