Em algum momento da AB2L Experience, depois de apresentar a EuDisseVocêDisse.com várias vezes, comecei a perceber que uma pergunta se repetia.
A pessoa entendia a solução, enxergava utilidade e, muitas vezes, fazia conexões com problemas que já tinha visto no escritório, na empresa ou em algum conflito concreto. Logo depois vinha a dúvida: “mas isso vale como prova?”
Eu gostei de ouvir essa pergunta porque ela tira a conversa da camada mais superficial da tecnologia. Uma solução pode impressionar em uma demonstração, mas no Direito isso nunca é suficiente. Em algum momento, qualquer inovação séria precisa enfrentar temas como validade, privacidade, contraditório, responsabilidade profissional e possibilidade de contestação.
No caso da prova digital, essa discussão é ainda mais importante. Durante muito tempo, comunicações digitais foram tratadas de forma improvisada: prints isolados, conversas exportadas sem muito critério, PDFs enormes, áudios encaminhados sem contexto e seleções feitas pelo próprio cliente, quase sempre com boa-fé, mas naturalmente influenciadas pela forma como ele viveu aquele conflito.
Isso não acontece apenas no Direito de Família. A AB2LEx me mostrou isso de forma muito clara. Advogados de áreas corporativas, profissionais ligados a contextos educacionais e pessoas que atuam em outras frentes jurídicas também reconheceram o problema. Sempre que uma disputa depende de mensagens, e-mails, áudios ou registros digitais espalhados ao longo do tempo, a dificuldade deixa de ser apenas encontrar uma frase específica. O desafio passa a ser reconstruir uma sequência com método.
Foi por isso que uma das conversas mais relevantes que tive no evento foi com Angelo Gramlich (foto ao lado), advogado e investigador defensivo da Gramlich & Advogados. O Angelo já acompanhava a EuDisseVocêDisse.com e tem enxergado a solução como uma inovação relevante para o direito probatório e para a organização de evidências digitais.
Essa troca foi importante porque colocou a nossa tecnologia no lugar certo. Não como mais uma promessa genérica de IA, nem como uma ferramenta que pretende substituir a análise jurídica, mas como uma forma de dar estrutura a um material que, na prática, costuma chegar ao advogado de maneira desorganizada, emocionalmente carregada e difícil de revisar com profundidade.
A investigação defensiva parte de uma lógica que conversa muito com esse ponto: evidência não é apenas aquilo que se encontra, mas aquilo que se trata com técnica, estratégia e responsabilidade. Quando falamos de comunicação digital, essa lógica se torna ainda mais relevante, porque uma mensagem raramente explica tudo sozinha. O sentido muitas vezes está na sequência, na repetição, na mudança de tom, na contradição entre versões e no contexto em que aquela comunicação aconteceu.
A EuDisseVocêDisse.com não foi criada para decidir quem está certo ou errado em uma relação. Também não foi criada para substituir advogados, juízes, peritos, psicólogos ou qualquer profissional responsável por interpretar um caso. A proposta é organizar grandes volumes de comunicação digital, identificar padrões relevantes, estruturar cronologias e reduzir o caos inicial que muitas vezes impede uma análise mais clara.
Essa diferença precisa ser bem compreendida. Usar IA para apoiar a leitura de evidências não é a mesma coisa que automatizar julgamento. A primeira hipótese pode ajudar o profissional a trabalhar melhor. A segunda abre espaço para decisões apressadas, vieses e uma falsa sensação de objetividade.
Quando alguém me pergunta se uma análise de comunicação digital vale como prova, a resposta honesta não cabe em um simples “sim” ou “não”. A pergunta correta passa pelo modo como aquele material foi coletado, preservado, organizado e apresentado. Também passa pela finalidade do tratamento, pelo nível de transparência, pela proteção dos dados envolvidos e pela possibilidade de a outra parte questionar o conteúdo.
Uma boa tecnologia não elimina essas preocupações. Pelo contrário, deveria ajudar a torná-las mais visíveis.
Esse talvez tenha sido um dos pontos mais interessantes da AB2LEx para mim. A curiosidade sobre IA estava ali, mas não apareceu sozinha. Ela vinha acompanhada de perguntas sobre LGPD, prova digital, Resolução 615/2025, privacidade, cadeia de custódia e limites éticos. Para quem está construindo uma solução nesse espaço, esse tipo de questionamento não é um obstáculo. É um sinal de que o mercado está levando o tema a sério.
Também precisamos reconhecer que o problema já existe, independentemente da tecnologia. Advogados recebem milhares de mensagens de clientes. Escritórios tentam revisar conversas longas em prazos incompatíveis com o volume de material. Profissionais são expostos a conteúdos emocionalmente pesados durante horas, dias ou semanas. Em muitos casos, informações relevantes ficam perdidas não porque sejam irrelevantes, mas porque o volume tornou a análise manual quase impraticável.
A pergunta, então, não é se o Direito deve lidar com a comunicação digital de forma mais estruturada. Essa necessidade já está posta. A pergunta é como fazer isso com método, segurança, privacidade e responsabilidade.
Não ter a ideia de IA como moda, mas a possibilidade de construir uma abordagem mais séria para evidências digitais tornou essa conversa mais interessante.
Prova digital não é só o arquivo que se apresenta. É também o caminho que permite compreender aquele arquivo dentro de uma história, de uma sequência e de um contexto.
E talvez seja justamente nesse ponto que a tecnologia tenha mais a contribuir.
Cler Ribeiro
CEO da EuDisseVocêDisse™️
Cler Ribeiro é Líder Feminina do Ano em IA na Austrália (2024) e vencedora do Prêmio de IA de Queensland para o Bem Social. Com sólida experiência em TI, atuou em empresas como HP e Uber, desenvolvendo soluções inovadoras, eficientes e centradas no usuário, com foco em impacto e tecnologia.