A recente decisão no caso Henry Borel reacendeu uma discussão que vai além do próprio processo. Monique Medeiros recebeu perdão judicial após o júri desclassificar a acusação de homicídio por omissão para homicídio culposo. Parte da fundamentação noticiada pela imprensa mencionou misoginia, cultura patriarcal e a cobrança social em torno da figura da mãe.
Ao mesmo tempo, a reação pública seguiu por outro caminho. Para muitas pessoas, o centro da indignação não estava em uma expectativa idealizada sobre maternidade, mas na possível negligência, omissão ou cumplicidade diante da violência sofrida por uma criança.
Não é necessário transformar esse debate em uma disputa simplificada entre defesa das mulheres e responsabilização materna. O ponto jurídico mais delicado está na forma como categorias fortes são usadas para interpretar condutas. Misoginia, negligência, omissão, vulnerabilidade, discriminação e responsabilidade não são apenas palavras de impacto social. Quando entram na linguagem do processo, passam a influenciar a leitura de fatos, prova, culpa e consequência jurídica. É justamente por isso que as definições claras importam.
O Direito precisa reconhecer mudanças sociais e proteger grupos vulneráveis. Mas essa tarefa exige precisão. Quando uma categoria se torna ampla demais, começa a perder capacidade de orientar a aplicação da lei. Quando fica estreita demais, pode deixar condutas relevantes fora do alcance jurídico. O desafio está em delimitar com clareza o que está sendo protegido, qual conduta está sendo analisada e quais critérios permitem diferenciar uma situação da outra.

Essa discussão aparece com força no debate sobre a definição jurídica de mulher, especialmente quando a tentativa de ampliar inclusão passa a interferir em categorias legais construídas para proteger realidades específicas. O tema é sensível, mas não pode ser tratado apenas como disputa cultural. Definições jurídicas delimitam direitos, deveres, estatísticas, políticas públicas, responsabilização e prova.
O mesmo acontece quando se fala em misoginia. Se o termo é usado para identificar ódio ou aversão às mulheres, é preciso diferenciar essa conduta de crítica, conflito interpessoal, reprovação moral, indignação social ou responsabilização legítima. Sem essa distinção, o risco é transformar uma categoria relevante em uma explicação genérica para situações muito diferentes entre si.
No caso das comunicações digitais, essa dificuldade se torna ainda mais concreta. Uma mensagem pode ser lida como ameaça, desabafo, insulto, provocação ou evidência de controle, dependendo do contexto. Um áudio pode demonstrar intimidação ou apenas uma reação emocional isolada. Uma sequência de conversas pode revelar coerção, mas também pode mostrar conflito mútuo, respostas defensivas ou versões que precisam ser analisadas com cautela.
Para identificar comportamentos em comunicação digital, não basta procurar palavras específicas. É preciso entender recorrência, direção da conduta, contexto, resposta da outra parte e relação entre os envolvidos. Sem categorias claras, a análise fica vulnerável à impressão de quem lê. E, em matéria jurídica, impressão não deveria substituir critério.
Na EuDisseVocêDisse.com, essa preocupação é central. A tecnologia pode organizar comunicações complexas, estruturar acontecimentos e tornar o material mais navegável. Mas a utilidade dessa análise depende da clareza das categorias aplicadas. Quanto mais sensível o tema, maior a necessidade de critérios compreensíveis, revisáveis e contextualizados.
A inteligência artificial não resolve sozinha o problema da definição. Pelo contrário, pode ampliar o problema se categorias vagas forem aplicadas em escala. Uma ferramenta pode ajudar a encontrar sinais, organizar evidências e reduzir ruído, mas não deve transformar conceitos instáveis em conclusões automáticas.
O avanço do Direito exige inclusão, proteção e atualização. Também exige limites conceituais suficientemente claros para que condutas possam ser identificadas, contestadas e provadas.
Quando a linguagem perde estabilidade, a aplicação da lei também perde. E, em temas sensíveis, essa instabilidade pode afetar tanto quem precisa de proteção quanto quem precisa de um processo justo.
Cler Ribeiro
CEO da EuDisseVocêDisse™️
Cler Ribeiro é Líder Feminina do Ano em IA na Austrália (2024) e vencedora do Prêmio de IA de Queensland para o Bem Social. Com sólida experiência em TI, atuou em empresas como HP e Uber, desenvolvendo soluções inovadoras, eficientes e centradas no usuário, com foco em impacto e tecnologia.