Fui para a AB2L Lawtech Experience com uma expectativa bastante prática: apresentar a EuDisseVocêDisse.com, conversar com advogados, ouvir perguntas, entender se o problema que estamos resolvendo na Austrália também fazia sentido no Brasil.
Voltei com outra sensação.
O Brasil não está apenas curioso sobre IA jurídica. O Brasil está fazendo perguntas melhores do que muita gente imagina.
Em meio a um evento com cerca de 8 mil participantes, vi estudantes falando sobre regulação, advogados perguntando sobre prova digital, profissionais de áreas corporativas tentando entender como organizar grandes volumes de comunicação, e pessoas que nunca tinham pensado em Direito de Família se aproximando para dizer: “isso também acontece na minha área”.
Essa frase ficou comigo.
Porque a EuDisseVocêDisse.com nasceu a partir de um problema muito concreto: conversas demais, contexto demais, sofrimento demais e tempo de menos para transformar tudo isso em uma leitura jurídica clara.
No Direito de Família, isso aparece com muita força. São anos de mensagens, áudios, e-mails, prints, acusações, respostas atravessadas, silêncios, ameaças veladas e padrões que raramente aparecem em uma única frase. Quem trabalha com esse tipo de material sabe que o problema não é apenas encontrar uma mensagem específica. O problema é entender a história inteira sem se perder dentro dela.
Mas a Lawtech Experience me mostrou algo importante: esse não é um problema exclusivo do Direito de Família.
Ele aparece no ambiente corporativo. Aparece em disputas internas. Aparece em contextos educacionais. Aparece em investigações, conflitos institucionais, relações de trabalho, compliance e em qualquer situação em que a comunicação digital vira parte central da disputa.
Talvez tenhamos nos acostumado a tratar mensagens como algo simples demais. Um print. Um anexo. Um PDF. Uma conversa exportada às pressas.
Mas, na prática, comunicação digital é comportamento no tempo.
É sequência. É repetição. É mudança de tom. É contradição. É escalada. É contexto. E o Direito, cada vez mais, vai precisar lidar com isso de forma mais séria.
O que me chamou atenção nessa conferência foi que as melhores conversas não foram sobre “IA que escreve petição”. Foram sobre confiança, sobre validade, privacidade, limite entre organizar informação e substituir julgamento humano. E também sobre o que significa usar tecnologia em matéria sensível sem transformar pessoas em pontuação, ranking ou diagnóstico automatizado.
Esse tipo de conversa me interessa muito mais.
Porque, para mim, IA jurídica não deveria ser vendida como mágica. Também não deveria ser tratada como ameaça abstrata. A pergunta mais relevante não é se a IA vai entrar no Direito. Ela já entrou. A pergunta é que tipo de IA merece entrar nos fluxos jurídicos, sob quais limites, com qual supervisão e com qual responsabilidade.
A Lawtech Experience me deixou mais otimista.
Não porque o mercado esteja completamente maduro. Nenhum mercado está. Mas porque existe uma diferença enorme entre encantamento superficial e curiosidade responsável. E o que encontrei no Rio foi muito mais próximo da segunda opção.
Vi pessoas empolgadas, sim. Mas também vi gente questionando. E questionar é bom.
Quando alguém pergunta sobre LGPD, prova digital, Resolução 615/2025, privacidade, cadeia de custódia ou validade de evidências, essa pessoa não está bloqueando a inovação. Está ajudando a separar tecnologia séria de promessa vazia.
Esse é o espaço em que acredito que a EuDisseVocêDisse.com pode contribuir no Brasil.
Não como mais uma ferramenta dizendo que vai resolver tudo, mas como uma tecnologia criada para lidar com um problema real: o excesso de comunicação digital em conflitos humanos complexos, onde contexto e método importam e responsabilidade importa ainda mais.
Saí da AB2L LEx 2026 com muitas conversas para continuar e acima de tudo, saí com a impressão de que o Brasil está pronto para uma conversa mais adulta sobre IA jurídica.
E isso, para mim, foi o melhor sinal da conferência.
Cler Ribeiro
CEO da EuDisseVocêDisse™️
Cler Ribeiro é Líder Feminina do Ano em IA na Austrália (2024) e vencedora do Prêmio de IA de Queensland para o Bem Social. Com sólida experiência em TI, atuou em empresas como HP e Uber, desenvolvendo soluções inovadoras, eficientes e centradas no usuário, com foco em impacto e tecnologia.